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Emmy Curl

Rita Carmo

Catarina Miranda parou de estudar aos 20 anos, fundou uma loja e disse à mãe: “Agora estou por minha conta”. A história de Emmy Curl

Depois de participar no Festival da Canção, despertou a atenção de mais ouvintes para a música que vem gravando como Emmy Curl. À BLITZ, a artista transmontana conta como tem sido a sua vida pós-festival e partilha os planos que tem para este ano

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Um álbum, três EP e uma criatividade que não se fica pela música, estendendo-se até à moda e à fotografia - há cerca de uma década que Emmy Curl, nascida como Catarina Miranda em Vila Real, Trás-os-Montes, cria várias identidades para compartimentalizar a sua obra. Em 2018, o seu percurso conheceu um 'empurrão' inesperado - após a participação no Festival da Canção, a convite de Júlio Resende, autor de 'Para Sorrir Eu Não Preciso de Nada', Catarina Miranda passou a receber mensagens de fãs que a veem no metro, mas que têm “vergonha” de lhe falar. Para a jovem artista, a nova popularidade é “surreal”, mas os pés continuam bem assentes no chão e a bússola aponta para o mesmo norte - o de fazer aquilo de que gosta, sem cedências ou facilitismos. À BLITZ, poucas horas antes de um aplaudido concerto no Centro Cultural Olga Cadaval, Emmy Curl falou sobre o seu universo pessoal e altamente transmissível.

Recentemente participou no Festival da Canção. Essa experiência mudou muito a sua vida? Há mais gente a reconhecê-la, a falar consigo?
Tenho aproveitado a onda. Foi muito importante para a minha carreira, porque [levou] muita gente a descobrir Emmy Curl... E muita gente já me perguntou porque é que não usei Emmy Curl como nome de concorrente, mas acho que é tão melhor quando vejo que as pessoas foram à procura e me descobriram - e eu vejo nelas esse entusiasmo de me terem descoberto! Eu identifico-me muito com isso: prefiro descobrir uma coisa do que ma darem a conhecer. Sinto que é mais especial algo que fui procurar, a que dei atenção, do que publicidade... A maior parte das coisas que me impõem eu nem sequer vou ouvir, e se calhar são incríveis. Suponho que as pessoas também pensem assim e, mesmo no feedback que me deram, senti isso. Em cada mensagem que me mandaram, senti que foi pensada e escrita com carinho. E é isso que eu procuro: essa profundidade, mais do que uma superficialidade de informação. Porque a esse lado da humanidade já deixei de dar atenção. Se as pessoas tiverem este exemplo de "dig deeper" e encontrarem coisas de que realmente gostem, faz mais sentido e é muito mais emocional, muito mais pessoal. Eu preferi assim. Tenho estado a aproveitar a atenção que me foi dada e agradeço a toda a gente - ao Júlio Resende por me ter convidado... Estou agradecida e não há nada melhor que possa fazer do que continuar a trabalhar ainda mais. Não tenho saído muito à noite, tenho ficado a trabalhar. Mas ainda ontem recebi uma mensagem de uma rapariga que diz que me viu no metro. (risos) E mandou-me mensagem mais tarde, a dizer que me viu e que esteve para me dizer alguma coisa, mas que teve vergonha. Isso para mim é surreal. Acho que ainda não tenho bem a noção [dos efeitos do festival], mas é bom que fique por aqui. O que quero é que as pessoas apareçam nos meus concertos e poder ganhar a vida a fazer aquilo de que gosto.

O Festival da Canção também foi bom para fazer amizades, conhecer outros músicos?
Completamente. Eu dou muito valor às relações humanas, e no festival chegámos a um ponto em que a Joana [Barra] Vaz já estava a perguntar quando é que íamos fazer um acampamento. Foi mesmo bonito. Não sei se nos outros festivais aconteceu, porque não estive lá, mas desta vez senti que toda a gente estava ali pela música, ganhasse quem ganhasse. Foi muito bonito chegarem os ensaios, irmos para o hotel e ficarmos lá a tocar até às tantas, a trocar experiências que vivemos, a conhecermo-nos melhor... Eu sempre fui apologista disto: que em Portugal faltava não só melhor música, e música arrojada, como união entre nós - porque aprendemos uns com os outros. É o que os brasileiros fazem e é dali que nascem aprendizagens e experiências novas. Aqui temos a coisa da inveja, “ai, não vou fazer igual...”. E esta geração está a pegar na música dos outros... O Salvador ter cantado [a música da Joana Barra Vaz] foi fixe, eu também queria ter feito uma versão da música da Cláudia [Pascoal] mas ainda não tive tempo. Mas é isto [que importa]: a música não ter um cunho de ego. A música não é de uma certa pessoa, a música é do mundo, nós somos só antenas que passamos o filtro para o material... e depois pega quem quiser! Acho que [o ego] é um attachment desnecessário, e no festival senti o oposto, por isso foi muito fixe. E haver um compositor a pegar num intérprete também é um jogo muito bonito. O que o festival tem de bom é esse coworking: sou compositor e, pelas regras, tenho de pegar num intérprete para cantar a minha música, tenho de pegar numa pessoa para escrever a letra. É como um laboratório de criatividade.

Apresentou recentemente uma nova canção, 'Dança da Lua e do Sol'. Vai ser um single isolado ou estará incluída no próximo álbum?
Vou incluí-la no novo álbum. Estará presente na parte da natureza, porque o álbum terá um tema. É um disco conceptual sobre a natureza e a tecnologia e a ligação que elas podem ter. Esta inspiração veio de um filme que saiu há uns anos, “Cloud Atlas”, no final do qual se mostra o futuro do futuro, com a natureza e a tecnologia interligadas, a viverem em harmonia. Essa utopia é o que quero passar com este disco: uma junção da organicidade da guitarra com as atmosferas mais eletrónicas.

E esse álbum já tem data de saída?
Em princípio sairá ainda este ano, mas estou a pensar adotar uma estratégia diferente: talvez venha a lançar singles em vez de um álbum inteiro. Isso também me permitirá ter tempo para ir reconstruindo e desconstruindo as músicas, trabalhando-as melhor.

Essa dicotomia de natureza e tecnologia é um tema interessante...
Sim, porque levanta muitas questões filosóficas. Estamos numa era em que... para já, nunca houve tanta paz - não a nível global, mas na área onde estamos - durante tanto tempo. E isso faz com que se levantem questões filosóficas. As pessoas vêm questionar-se sobre o que podemos fazer melhor. E surgem estas questões filosóficas sobre o que somos, de onde viemos. Isso leva-nos a imensas respostas que, depois, vão ao encontro destes pequenos puzzles de tecnologia e natureza. Como podemos melhorar, sem descartar a nossa ciência milenar, que como sabemos é indispensável? Ao mesmo tempo, há um lado muito feminino que foi perdido. Tive muito contacto com mulheres que sempre se interessaram pela espiritualidade e pela natureza e o que vejo é que essa parte feminina se foi perdendo, porque vivemos numa era muito patriarcal. Está na altura de mudarmos. O feminismo está a trazer à tona esta tendência de ligarmos mais às mulheres, àquilo que elas pensam. Além dos seus direitos, [atentar] ao que elas vêm transmitir ao mundo, que é este lado mais da natureza, mais ligado à terra. Não queria dizer esotérico, mas espiritual, no sentido em que é sentimental, é emocional.

O lado emocional é descartado, por ser considerado contrário à razão. Mas não é necessariamente assim...
Exato, porque a razão é muito masculina. Mas complementam-se!

Voltando à nova canção, lembra-se de a ter escrito? Foi uma das primeiras que escreveu para o novo álbum?
Não, de todo. Por acaso nasceu no Porto... Algumas canções ainda vêm de Aveiro. A canção fala sobre uma relação em que duas pessoas não se chegam muito bem a encontrar. Estão apaixonadas uma pela outra, sentem isso, mas nunca chegam a dizer, nunca chegam a encontrar-se. Uma entra, outra sai do espaço... E isso fez-me lembrar a dança da lua e do sol, que vivem em sintonia, e são indispensáveis um ao outro, mas que nunca se encontram. É um final infeliz para uma relação, mas às vezes acontece. São paixões platónicas.

Falou do Porto, onde vive, e de Aveiro, onde viveu antes. As cidades influenciam a música que faz?
Sim, completamente. Quando fui para o Porto, conheci muito mais gente com quem podia falar sobre estes assuntos. Debatia durante horas, havia jantares sobre estes assuntos... Em Aveiro, havia muito poucas pessoas a quem eu me ligasse, e é uma cidade fechada à cultura. Não é uma cidade em que saias à noite e vás ver concertos, durante a semana... Eu era muito pobre em termos de crescimento cultural próprio. E no Porto... é como um vaso! Uma cidade é um vaso ao qual tu chegas e onde estendes as raízes; quando já tocas nas arestas, é sinal de que precisas de mudar. A terra, as pessoas, a cultura - sobretudo a parte da cultura ajuda-te a crescer mais alto. E o Porto fez-me crescer imenso. Ainda está a fazer crescer.

Ainda volta a Vila Real com frequência?
Sim, e agora, mais do que nunca, sinto a necessidade de voltar. Atenção: eu estou a falar do Porto e parece que estou a falar de Nova Iorque. (risos) Mas como sempre vivi em Vila Real, quando me mudei para Aveiro já pensava que era uma grande cidade. Quando fui para o Porto é que percebi o que era uma cidade. E nem se compara a Lisboa - o Porto é uma aldeia. ainda. Mas cada vez mais preciso de Vila Real para me acalmar, e o tempo passa muito mais devagar, lá. É uma coisa indescritível. Chego a Vila Real e parece que tenho todo o tempo do mundo. Fico a respirar, a carregar as baterias.

Em Vila Real, as pessoas que a conhecem desde sempre acompanham o seu percurso?
Quando lá vou, fico na casa da minha avó, que é mais afastada do centro, pelo que não tenho muito contacto com as pessoas. Mas, quando saio à noite, encontro os meus colegas da música, outro pessoal que faz música... e aquilo é uma família! E eu sou muito acessível, não tenho grandes dificuldades em dar-me com as pessoas. Também acompanho o trabalho deles, por isso é uma relação [mútua].

Emmy Curl

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O seu novo single é um dueto com Vicente Palma. Como o conheceu?
O Vicente Palma viu-me no “Cinco para a Meia-Noite”, na última vez que estive lá, para aí há cinco anos. Viu-me e mandou-me uma mensagem para o Facebook, a dizer que tinha gostado muito da minha música, que gostava muito de me conhecer, e veio ter comigo a Aveiro. Passámos dois dias a compor e a explorar, ao piano - eu tinha um piano, na altura. Foi muito giro e chegámos a combinar: temos de fazer alguma coisa juntos! Quando este álbum surgiu, pensei logo nele, para completar 'A Dança da Lua e do Sol', e estamos a pensar fazer uma cena juntos, mesmo a sério.

Um disco conjunto?
Sim! Acho que nunca senti tanta ligação em termos de melodia... e mesmo em termos de voz! Ontem estive a ensaiar com ele e parece que a minha voz é a dele. É muito bonito sentir isso.

Após o Festival da Canção, partilhou um post no Instagram que termina com algo como “tratem bem de vocês, porque só nos temos a nós”. Essa ideia de independência, de autonomia é um dos seus motes?
Completamente. Eu neste momento estou solteira. (risos) Estou num encontro comigo mesma. Ainda ontem tive esta conversa com o Vicente [Palma]: é a primeira vez na minha vida em que estou solteira, não tenho ninguém, não estou apaixonada, não estou à procura de nada - estou só a curtir estar sozinha e a viver da minha independência. Sempre fui independente, mas o facto de não teres ninguém ligado a ti é outra maneira de viver. Só tens a tua rotina e acabou, não tens responsabilidades com ninguém - estás por tua conta. Nesse dia [da foto] fui fazer uma massagem a uma senhora, e ela é que me deu a ideia de tomar um banho de imersão. Eu estava toda partida, depois do festival, e ela estava a fazer a massagem e disse-me: “estás doida, tens de vir cá mais vezes, estás com as costas todas destroçadas!”. Ela é que me disse, no fim: “agora vai tomar um banho de imersão, para descontrair”. E eu: “bem lembrado, já não tomo há muito tempo”. Se não tomarmos bem conta de nós mesmos, não temos paciência para dar a ninguém. Temos de estar bem connosco para nos entregarmos a outras pessoas.

Diz que os seus pais a tentaram dissuadir de seguir uma carreira musical, até perceberem que era mesmo isso que queria fazer. Quando é que isso aconteceu?
Não foram só os meus pais! A própria cidade de Vila Real é muito castradora. Todas as pequenas cidades são assim. As pessoas fazem-te não acreditar nos teus sonhos - como nunca lhes aconteceu igual, acham que é impossível. Mas a verdade é que, quando acreditas numa coisa e pões aquilo na cabeça, torna-se possível. O segredo do sucesso é ser persistente - e acreditar. Mas os meus pais, como também tinham sido músicos, e vir de Vila Real é muito difícil [singrar]... Eu tive a sorte de ter a internet na minha altura. Se tivesse nascido na mesma altura que eles e tivesse uma banda, provavelmente estaria em Vila Real, a trabalhar numa pastelaria. Não é que isso seja mau, mas teria seguido um caminho completamente diferente do que queria escolher. Ao mesmo tempo, essa luta ainda me deu vontade de conseguir trabalhar naquilo de que gosto. Hoje em dia, [os meus pais] não têm nada a dizer, claro - já perceberam. Aos 20 parei de estudar. Não tenho nenhum curso, apesar de ter entrado [no ensino superior] - a música acabou por engolir toda a minha atenção, então ia para as aulas e não me conseguia concentrar em nada. Tirei 20 a Desenho, a única coisa em que me conseguia concentrar, e o resto zero. Aí desisti e fundei a [loja de roupa] Emília Caracol para me conseguir [sustentar]. Liguei à minha mãe e disse: “esquece, não quero que me pagues mais nada, estou por minha conta”. Tinha uns 20 anos.

Emmy Curl

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Um dos fatores mais presentes na sua música é a voz. A forma como a trabalha, as melodias, as camadas... cantar é aquilo que lhe dá mais prazer?
Ainda outro dia pensava nisso: o que é que me dá mais prazer? Tocar ou cantar? E com o festival cheguei à conclusão de que, mais do que tocar e compor, eu gosto mesmo muito de cantar. Para já, é muito mais fácil para mim cantar do que tocar guitarra. É só uma nota, não tens várias coisas a acontecer, e posso levá-la para todo o lado. Se for para uma jam levo a minha voz, para um ensaio levo a minha voz, para um concerto... Sinto que é o elemento mais pessoal que tenho. É o nosso elemento mais pessoal - por isso é que há [os sistemas de] “voice recognition”, aquela coisa de reconhecerem a tua voz na casa, ou a vista. É o nosso ADN. Agora, se a minha voz é única ou especial em todo o mundo, estamos errados - claro que não. Mas alguma coisa tem de ter de único, porque cada um de nós é único, não só na nossa voz como na nossa forma de ver. Nunca haverá ninguém que veja a vida como nós vemos, nunca.

Em criança, gravava a sua própria voz num gravador de cassetes...
Gravava as minhas aulas da primária, gravava a minha professora... e depois, no fim das aulas, ia pedir à professora para cantar no palco! Nem sei como tinha coragem! Hoje sou mais tímida do que era na altura! Ainda outro dia um amigo da minha mãe me enviou um vídeo meu em palco, com uns miúdos, e nem me reconheci a mim própria! Estava lá na boa, tranquila, com a minha mãe a tocar guitarra, os miúdos a cantar... É engraçado como essa timidez cresce em nós, sem darmos conta. Eu era viciada em gravar tudo e, quando o meu pai montou um estúdio para ele, que podia ser usado por qualquer pessoa, foi mesmo “addiction”. Tanto que, ainda hoje, adoro estar em estúdio a compor, a gravar sozinha.

Rita Carmo

Quais são as suas vozes favoritas?
Gosto muito da vocalista dos Little Dragon, Yukimi Nagano. Erykah Badu, Ella Fitzgerald, José González... Do Jacob Collier: esse menino é um alien! Eu acordo a ouvir música clássica e muitas vezes acabo as noites a ouvir tecno! (risos) Se for boa, a música trespassa qualquer estilo. E uma das coisas que me dão mais prazer é não estar à espera de gostar de certo estilo, ouvir uma música e gostar! Há muitas pessoas que ficam bloqueadas: “só gosto disto”. Não conhecem mais nada e acabam por perder muita coisa boa.

Também é fã de escritores como Miguel Torga ou Raul Brandão. É aquele lado mais telúrico que a atrai?
A minha mãe é poetisa, o meu bisavô era poeta... o lado da minha mãe é mais literário. A minha avó também fez traduções, o meu avô chegou a [organizar], no Porto, tertúlias com temas, em cafés... Eu era criança, mas participei e absorvi muita coisa. Adoro esses escritores mas tenho a noção de que não sou muito aprofundada em termos de literatura, como gostava de ser. Hoje em dia, foco-me mais na música mas, quando tenho tempo, leio. E quanto mais leio, além de perceber que não sei nada, inspiro-me bastante. Por exemplo, se estiver sem inspiração, leio poesia. São paisagens de informação sem imagem, sem som, e tu é que as imaginas.

Ainda dá nome às suas guitarras?
(Gargalhada) Dou! Esta última é o Artur. O Arturzinho. Tive o Óscar, que já foi embora... eles depois têm de ir à vida deles.

São sempre nomes de homem?
Tenho uma que é a Eurídice, que é a pequenina. Como essa apareceu na altura em que escrevi a [canção] 'Eurídice', dei-lhe esse nome.

A BLITZ agradece ao Chalet Saudade, em Sintra, pela cedência das instalações para a realização da entrevista e da sessão fotográfica