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«Ainda hoje me perguntaram se vale a pena fazer discos. Fazer um disco dá-te a alma de volta», Mazgani

Rita Carmo

Mazgani canta por inteiro: leia aqui a entrevista do músico à BLITZ

Um dos homens que, em Portugal, mais carinhosamente constrói canções acaba de lançar o seu quinto álbum. Lia Pereira ouviu-o falar dos seus heróis e, por portas travessas, de si mesmo.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Como qualquer cantor-compositor, Shahryar Mazgani, nascido há 42 anos no Irão mas desde os cinco cidadão português, tem um universo, lírico e sonoro, que as suas criações visitam com mais frequência.

Devoto dos grandes mestres, como Leonard Cohen, Tom Waits ou Nick Cave, volta a debruçar-se, ao quinto longa-duração, sobre os temas maiores que a vida - passe o lugar-comum, o amor e a morte parecem continua a nortear as suas canções, que o autor se congratula por, neste The Poet's Death, soarem cada vez mais «despidas e minimais». Mas quando o encontramos, num ameno fim de tarde no Jardim da Estrela, em Lisboa, o músico que assina com o último nome mostra algum pudor em falar diretamente sobre aquilo que canções como «Burning Heart» ou «The Saddest River» versam. É falando sobre os outros, quer-nos parecer, que acaba por revelar mais sobre si mesmo.

Por exemplo: Peixe, exímio guitarrista que o grande público conhece como membro dos Ornatos Violeta, mas que há alguns anos encetou uma elegante carreira a solo, foi o «querido amigo» que Mazgani escolheu para produzir o primeiro disco de originais desde Common Ground, de 2013 (no ano passado lançou Lifeboat, um conjunto de versões). Sobre a participação de Peixe, que também o acompanhará, na guitarra, em alguns concertos, o nosso interlocutor não mede as palavras: foi «fundamental», garante. «O que muitas vezes se faz, ao erigir uma canção, é ir tocando e, quando achamos que ela está a tomar forma, gravamos, para não nos esquecermos. Desta vez, gravámos todas as tentativas, todas as abordagens», revela.

Dessa forma, os músicos acabaram por «capturar» certos momentos «em que as coisas estão a acontecer. Houve uma abordagem um bocadinho punk, isto é: [se está bom], não mexe mais! O próprio tempo de estúdio foi curto», acrescenta.

«Gravámos todos juntos. Este é um disco muito despojado, sem grandes explosões ou overdubs. O estúdio é um lugar de desempenho», salienta, encaixando várias vezes ideias como pequenas matrioskas. «Um espaço de exposição e de vulnerabilidade. E é preciso tato para habitá-lo. É preciso haver encorajamento, entusiasmo, alegria. O Peixe tem isso e tem a sabedoria de tocar para as canções», elogia. «Mesmo sozinho, ele faz canções, ou seja, está muito próximo da voz humana; tem um lamento belíssimo. E toca com muita urgência. Toca como quem precisa de tocar. E isso é algo que tem ressonância, que é percetível para o ouvinte. Há pessoas que precisam de tocar e as notas adquirem uma outra autoridade graças a essa urgência. O Peixe tem isso, tem esse dom».

Aproveitamos o embalo de Mazgani, claramente mais confortável a enunciar as virtudes alheias do que as suas, e atalhámos caminho: e ele, precisa de cantar, nesse sentido quase visceral da necessidade? «Eu acho que sim!», começa por responder, quase envergonhado. «Não sei se é percetível, mas preciso», ri-se.

No anterior Common Ground, a produção ficou a cargo de dois ilustres: John Parish, músico britânico com obra importante em nome próprio, mas mais badalado pelas recorrentes colaborações com PJ Harvey, e o australiano Mick Harvey, um ex-Bad Seeds. Em The Poet's Death, John Parish continua, de certa forma, presente: foi Michelle Henning, sua mulher, que criou o artwork do álbum (sobre retratos da fotógrafa da BLITZ, Rita Carmo). «Apesar de o empreendimento da PJ Harvey ser monumental, é também um negócio de família. As fotos são tiradas por uma amiga, [a produção] é do John. [há uma rede de] amigos, confidentes e colaboradores. Eu acho que a Michelle tem uma sensibilidade extraordinária», destaca. «Quando estás a escrever uma canção, estás a imaginar uma paisagem, uma hora do dia. Eu acho que ela desenhou a canção que eu tinha na cabeça: é aquela hora. As canções do disco decorrem àquela hora, naquela paisagem, naquele crepúsculo».

Mazgani empresta uma atenção mimosa ao som e à palavra (ao longo da nossa conversa, cita Alberto Caeiro, Rothko e outros vultos para ilustrar certas ideias), mas a importância da imagem está também omnipresente na forma como encara a sua arte. Ainda sobre o trabalho de Peixe e de Nelson Carvalho, produtor e engenheiro de som da Valentim de Carvalho, que elogia profusamente, explica: «a produção é uma coisa difícil de definir. Mas o trabalho de desbaste, de tirar coisas, talvez possa ser considerado produção. Foi o que fizemos. O Nelson Carvalho foi fundamental: gravou, misturou e teve sempre uma palavra sábia para dizer nas alturas que achou indicadas. Mas toda a gente que intervém no processo está, de certa forma, a produzir. É determinar o território onde a ação vai decorrer», acaba por definir. «Qual é a hora do dia, qual é o filme? É um filme de época? Então tira o relógio da Seiko que tens no pulso».

Mazgani

Mazgani

Rita Carmo

Desde que se deu a conhecer, com uma distinção na revista francesa Les Inrockuptibles, que em 2005 o considerou um dos melhores novos artistas europeus, Mazgani não esconde a devoção que sente por Leonard Cohen. Enquanto pássaros alvoroçados regressam às suas árvores, no Jardim da Estrela, e um peixe salta do lago mais próximo da nossa mesa de café, o sadino adotivo recorda que, no dia em que o canadiano partiu para conhecer o seu criador, recebeu numerosas mensagens de amigos gesto que compreende, mas o deixou algo confuso.

«Estava ali a receber condolências e nem sequer o conhecia», explica. Contudo, a obra de Cohen é a torre inalcançável pela qual mede o valor da sua própria criação, confessa, sublinhando a cada passo uma modéstia que só não soa exagerada por ser evidente a sua genuinidade. «Ainda hoje me perguntaram se valia a pena fazer discos», conta, «e eu honestamente respondi: a minha medida do sucesso é completamente diferente. É preciso não confundir as coisas. O ritmo em que estamos a viver faz com que se confunda o valor e o preço das coisas, e esta resistência tem um valor salvífico, porque é o que nós somos. Um disco não é este disco!», alerta. «Mas fazer um disco devolve-te. Dá-te a alma de volta. Fazer um disco é querer esse tempo. Não estou a dizer que consigo fazê-lo, mas sei que é importante que esse tempo exista».

O tempo importa, também, para quem está «do outro lado», à escuta, num dia-a-dia cada vez menos amigo da contemplação. «O quotidiano não nos convida a perceber o que pensamos das coisas», considera. «Somos muito bombardeados. Estamos sempre assoberbados de ruído. Sem ser muito dramático, é precisa alguma reclusão. Essa solidão é habitada com os teus, com aqueles que admiras, com os poetas que partem, com aqueles contra os quais te medes, com aqueles que te derrotam», enuncia. Embora reconheça que pratica o mesmo ofício do homem de «I'm Your Man», Mazgani sabe que, se entrasse na sua «oficina», lhe diriam «desculpe, mas o senhor não pode entrar aqui assim! (risos). O Cohen habita esse espaço onde eu estou à procura», afirma, antes de com relutância resumir: «o Cohen mudou a minha vida. Decidi fazer canções quando abri um certo disco, comecei a ler as letras e fiquei. maravilhado?», vai tentando, insatisfeito com a força das palavras encontradas para descrever essa sensação de deslumbre.

«Foi um desconcerto. Ao mesmo tempo que tem aquela urgência de que falava, e que nos sussurra ao ouvido, transmite a sensação de estar a ouvir um salmo milenar. Há tanta sabedoria entre linhas, e por "entre linhas" quero dizer que nunca é panfletário. É tão understated, é tudo tão subtil. E tem super pinta, é super cool», ri, na véspera de rumar ao Porto para mais um concerto de homenagem ao seu herói, no qual participaram também Samuel Úria, Jorge Palma ou Márcia, entre outros.

Mazgani

Mazgani

Rita Carmo

Na sua solidão habitada, Mazgani procura aquilo que subsiste. «É preciso encontrar o que é constante. E, nesse sentido, tens de voltar ao sítio das canções para confiares que elas vivem, que há uma permanência, uma constância. Que aquela voz que encontraste não vai mudar com o tempo. Tens de confiar que estás a dizer algo que queres continuar a dizer; que a canção sobrevive à experiência que suscita», argumenta, admitindo que, nesse sentido, sente que escreve sempre «a mesma canção». Essa demanda terá sido, de resto, a missão que acompanhou Bowie ou Cohen até ao fim, diz-nos mais à frente.

Sobre o facto de ambos terem passado os últimos tempos a trabalhar em novos discos, garante: «não é uma coincidência, no sentido em que eles são alpinistas da alma. Eles vão subindo e dizendo: para chegar a esta altura, é preciso isto.», gesticula, lembrando o momento em que, no concerto de Leonard Cohen em Algés, se viu rodeado de pessoas a chorar de emoção. «É um companheiro da vida de todo nós, é a vida e a obra a confundirem-se. Já não vês o poeta, vês o poema. Isso é muito comovente».

Já depois de desligado o gravador, Mazgani confessa-nos que, ao invés de um êxito de vendas ou popularidade, a medida do seu sucesso pode ser um episódio como aquele que, ali mesmo naquele jardim, certa vez lhe sucedeu: um jovem casal avistou-o, reconhecendo-o, e o rapaz partilhou que foi com uma canção sua que meteu conversa com a rapariga.

«Mas resultou?», quis o cantor confirmar.

«Ela agora é minha namorada», exultou o felizardo. «Isso é alguma coisa, não é?», pergunta-nos ele. Estará perto de ser tudo, concordamos, sobretudo para quem, como Fazal Elahi, protagonista do genial livro de Afonso Cruz, Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, parece quase querer passar pelo mundo confundindo-se com a paisagem. «Andamos todos ao mesmo», diz a certa altura. «Como diz o Tom Waits, "it's got to be more than flesh and bone/All that you've loved is all you own". E é isso que comove no Cohen. É passar quase sem deitar rasto. É alinhares a tua vida com a tua voz e defendê-la intransigentemente. Isso confere voz a quem ouve, e salva. Sei que a palavra é foleira, mas salva. Quem se canta, canta-nos».

Outro dos salvadores em quem Mazgani deposita toda a sua fé é Nick Cave que, na altura em que conversámos, acabara de chegar à Europa para a primeira digressão depois da morte do filho, de 15 anos. Não tendo passado por Portugal, a digressão foi notícia por todo o mundo, sobretudo graças ao momento em que o australiano convidou o público a juntar-se a si em palco. «Há uma história bonita, de um tipo que quer cortar com o mundo, quer afastar-se dos homens, e então vive ao pé de um rio», alude Shahryar. «Certo dia, tira as suas roupas e mergulha nas águas. Quando sai, vê que lhe roubaram as roupas e, nesse momento, percebe que precisa dos homens. Talvez o Nick Cave tenha percebido que precisa que as pessoas estejam perto dele? E a experiência passa a ser celebratória? Porque era muito confrontacional. Eu nunca vi os Birthday Party, mas vi os Bad Seeds há muitos anos, e ele era o demo!», ri. «O palco pode ser um lugar de muitas experiências, como celebrar a vida. Creio que o que ele está a fazer é uma coisa inclusiva de precisar dos outros e dar-lhes aquilo que não tem. Ou aquilo de que precisa».

Mais do que melómano, Mazgani acredita no poder de cada som, mas também de cada pitada de silêncio. Os rituais associados à música emocionam-no e podem constituir um ato de «resistência» ao ruído dos nossos dias. «Em vinil o som é muito melhor», exemplifica, «mas não tem comando, nem skip nem shuffle. Tens mesmo de querer ouvir, e tem de ser bom. Eu gosto de ouvir os discos do início ao fim, nunca comprei um disco por causa da faixa 8», garante, entre riso. Ultimamente, tem-se deixado maravilhar pelos canadianos Timber Timbre - «acho o Taylor Kirk um génio, é um super arquiteto do silêncio!» - e continua crente num certo ideal quase asceta ao qual, diríamos nós, está mais perto de ascender do que, na sua modéstia, imagina. «Quando estás a cantar, estás só a cantar. Há uma "despertença", não és de ninguém, não és de nada e isso é valioso».