Manel Cruz no Vodafone Paredes de Coura: “Obrigado, foi fantástico” – e foi mesmo
19.08.2017 às 20h49
Manel Cruz voltou ao festival onde já foi feliz para apresentar duas mãos de canções novas. O carinho com que foi recebido foi o de sempre
"É sempre bonito tocar aqui. Parece a Casa na Pradaria!". Bastou-lhe subir ao palco e dedicar ao festival algumas palavras gentis para ouvir a primeira de várias ovações. Nascido no Porto no ano da revolução, Manel Cruz é, também em Paredes de Coura, um filho da casa, recebido invariavelmente com carinho e devoção. Assim foi quando cá troxe o seu projeto Foge Foge Bandido, em 2009, e assim foi (mas vezes mil) quando aterrou no verde minhoto para o único concerto de festivais da segunda vida dos Ornatos Violeta. Paredes de Coura não esquece a preferência e sabe acarinhar "os seus" - mesmo que isso signifique transportar para as primeiras filas um cartaz a dizer "toca Ornatos, ó boi", ao qual Manel Cruz respondeu com um bem-disposto: "És do norte, tu!".
Depois de, há dois anos, levar para a estrada um espetáculo ao qual chamou Estação de Serviço, nos últimos meses este "herói local" recuperou a formação (Nico Tricot na guitarra, Eduardo Silva no baixo, António Serginho na bateria) e mudou-lhe o nome. A Extensão de Serviço continua a dar corpo à poesia de Manel Cruz, com um repertório agora guarnecido com várias canções novas.
Além de temas como "Aldeia do Maluco", já tocado há dois anos, e com o seu quê de Miguel Torga, ou da canção-lengalenga da aventura Ovo, também já muito rodada, Manel Cruz maravilhou com pérolas como "Cães e Ossos" ("Deus é mãe, eu seu o seu cão"), "A Invenção da Tarde" ou "Missa" ("troco a missa por uma chamuça", como não adorar).
Deus parece, de resto, ser um dos grandes protagonistas desta nova fase de Manel Cruz, composta por canções tão telúricas como sentimentais, misturando com a mestria do costume pormenores mundanos e pequenas grandes reflexões, com um equilíbrio invejável.
"O diabo vai-me ajudar a reconstruir a cidade"; "Sabe Deus/Deus não sabe"; "Deus aqui não manda nada" foram algumas das tiradas que identificámos pelo meio da música produzida de forma entrosada e orgânica por um quarteto que se apresenta unido, lado a lado na frente do palco.
Navegando uma certa correnteza luso-brasileira-qualquer-coisa, Manel Cruz foi saltando entre o banjo e a guitarra acústica ou elétrica; quando se libertava do instrumento e aproveitava para dançar, frente ao molde gigante de um ouvido que podia, também, ser o simbolo deste festival que sabe ouvir, entusiasmava ainda mais o público já rendido.
É possível que o impacto de uma banda como os Ornatos Violeta não se venha a replicar, em qualquer dos futuros projetos de Manel Cruz, mas a verdade é que o portuense parece cada vez mais confortável com o legado do seu trabalho. Quando acrescentou ao alinhamento previsto "Borboleta", talvez o seu maior êxito dos últimos dez anos, e o público se lhe juntou no coro convicto, o sorriso não enganou: é possível que, em 2017, Manel Cruz finalmente acredite na deixa: "E tu pensas que não mas tu és mesmo bom a ser sempre quem és".
Agora resta saber se iremos encontrar estas novas canções no formato disco, ou streaming, em breve. A única novidade já conhecida do público, "Ainda Não Acabei", foi cantada do início ao fim por um casalinho que, à nossa frente, parecia acabado de chegar da praia, ou do rio. Coisas de Coura, tal como os parabéns supersónicos cantados ao festival, a mando de um dos artistas mais acarinhados da sua geração.
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