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Car Seat Headrest

Car Seat Headrest, o puto indie, esta quinta no Vodafone Paredes de Coura

25ª edição do festival minhoto continua e tem no projeto do norte-americano Will Toledo um dos seus protagonistas

Quando Will Barnes nasceu, os Jogos Olímpicos de Barcelona já tinham terminado, a tribo do rock celebrava "Smells Like Teen Spirit", dos Nirvana, e os Pavement — futuros arautos do indie rock — tinham feito o seminal Slanted and Enchanted. Em 1992, o mundo não era como hoje, mas os Car Seat Headrest — que começaram em 2010 como projeto solitário e lo-fi de Barnes, rebatizado de Toledo — são um bocadinho como a memória de 1992, um viveiro de música elétrica permeada por teenage angst. Depois de vários álbuns no underground, o "miúdo" entrou pela porta grande da Matador, editora de Queens of the Stone Age, Cat Power, Kurt Vile ou Belle & Sebastian. Dois grandes álbuns em pouco mais de seis meses e a estreia antológica no Porto, no ano passado, são apetitosos cartões de visita para o concerto no Festival Vodafone Paredes de Coura, na próxima quinta-feira.

Em 2015, Teens of Style, uma espécie de carta de apresentação sob forma de coleção de temas antigos regravados em estúdio, foi muito bem acolhido. Talvez se pensasse que o seu sucessor, Teens of Denial (2016), pudesse perder em comparação, mas aconteceu o contrário: o primeiro álbum "a sério" resultou ainda melhor. Foi um alívio concluir que não era ‘namoro passageiro’?
Foi um bom timing por parte da Matador. Quando eles apareceram, eu já estava a trabalhar no novo disco e tinha tudo mais ou menos "resolvido". Eles deram-nos dinheiro e fomos para estúdio. Teens of Style foi gravado num instante, por isso todos os esforços se concentraram em Teens of Denial.

O facto de os discos terem saído com tão pouco intervalo faz com que sejam percecionados como uma era, um período, não tanto como uma sequência de álbuns na história de uma banda...
Foi esse, definitivamente, o plano: funcionarem como uma parelha. Depois de fazermos Teens of Denial, começámos logo a trabalhar no seguinte. Sempre gostei de pôr as coisas cá fora depressa; é desse modo que consigo permanecer relevante para as pessoas. As coisas ficaram mais lentas ultimamente, mas vamos editar qualquer coisa este ano e no início do próximo temos disco novo.

Lançou oito álbuns entre 2010 e 2013 na plataforma online Bandcamp. Não teme que a vida na estrada, que se interpôs, possa secar o poço criativo?
Andar em digressão é uma tarefa esgotante do ponto de vista físico e atrasa o processo criativo, porque parte deste assenta na disponibilidade do corpo. Porém, do ponto de vista mental, é algo que nos coloca num outro modo de vida, o que beneficia a inspiração. Às vezes, estou demasiado cansado para tomar nota de uma ideia, mas as ideias não param — é só preciso encontrar forma de as reter.

Como fã de música, torna-se obsessivo? Quando descobre um artista, deseja ouvir tudo de uma vez?
Eu era assim, mas agora já não sei. Desde que tenho conta no Spotify ouço mais coisas avulso. Ouvir música tem sido, para mim, uma atividade de escrutínio de um espectro maior. Para ver o que me atinge ou não.

Consegue separar o fã do músico?
Não. E talvez seja por isso, por misturar um pouco as coisas, que investigo agora menos do que antes a música dos outros. Fazia-o a partir da perspetiva de fã, em busca de um certo mistério. Agora, como passo muito tempo a fazer a minha própria música, abordo-a de forma mais analítica — e o mistério tornou-se menor. É o que é.

Fazer parte de uma banda é um veículo para uma pessoa normal se permitir ser esquisita ou, pelo contrário, é quando uma pessoa esquisita consegue projetar uma certa normalidade?
As duas coisas acontecem. Podes ser a pessoa mais normal do mundo, mas quando sobes ao palco vais exagerar qualquer coisa. Ou podes ser uma pessoa pouco normal e o palco vai ‘normalizar’ essa discrepância.

Como é consigo?
Sou apanhado no meio. Não sei em que me devo transformar quando subo a um palco. É uma experiência alienante. Toda a gente está a olhar para ti... Quando estás do lado de lá, procuras sentir-te convencido pela personalidade de quem está a atuar, mais do que pela música. É um bocado irritante, porque, enquanto músico, sempre me concentrei mais na música. Contudo, ter boas canções não chega; é preciso projetar uma personalidade se quiseres sair por cima.

Vê-se de fora, como se estivesse a assistir a um filme com um protagonista parecido consigo?
Seria mais fácil se fosse assim. Fico muito entretido comigo mesmo. Não consigo manter a distância necessária para me colocar num ponto em que possa controlar as minhas próprias reações.

No NOS Primavera Sound 2016, quando voltou ao palco para agradecer a ovação, deu a impressão de não estar preparado para a consagração. Essa relutância é um mecanismo de defesa?
Esse foi um dos nossos melhores concertos até hoje. Nunca fomos tão bem recebidos como no Porto. Estava feliz, mas sabia que, por estar num festival, não iria poder dar um encore. É frustrante quando se tem um público destes e não há tempo para mais. Mas não deixa de ser um bom problema.

Entrevista publicada na revista E, dos Expresso, de 12 de agosto