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Chester Bennington (1976-2017): Um adeus sentido

Liderava uma das bandas rock mais bem-sucedidas dos últimos 20 anos. Morreu quinta-feira, aos 41 anos, aparentemente vítima de suicídio, no mesmo dia em que o seu amigo Chris Cornell teria feito 53 anos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Há cerca de dois meses, Chester Bennington foi notícia devido às declarações iradas que fez ao site Music Week. Agastado com a reação dos fãs ao novo single da sua banda de sempre, o vocalista “explodiu”: “Se acham que estamos a fazer isto por razões comerciais ou monetárias, procurando ter sucesso com recurso a uma qualquer fórmula… mais vale darem uma facada na vossa própria cara!”.

A atitude do músico terá surpreendido alguns fãs – afinal, o norte-americano sempre foi louvado pela sua atenção para com os admiradores; reportagens “na estrada” com a banda sublinhavam o tempo que os Linkin Park passavam a dar autógrafos e a conversar com os seus admiradores, depois dos concertos.

Mas o que sente um artista popular quando parte da sua audiência lhe vira costas? A tirada da polémica veio a propósito de ‘Heavy’, o single com que a banda de Los Angeles decidiu promover o seu álbum mais recente, “One More Light”, editado em maio. Muitos dos seguidores não gostaram da sonoridade mais pop do tema, que conta com a colaboração da cantora Kiiara, e os comentários online, de escárnio e maldizer, não tardaram.

“Quando fizemos o Hybrid Theory, tinha 20 e poucos anos e já era o mais velho da banda”, recordou na mesma entrevista, referindo-se à estreia nos álbuns dos Linkin Park, há 17 anos. “Por isso é que digo: mas porque é que ainda estamos a falar de Hybrid Theory? Isso já foi há anos. É um grande disco, também o adoramos. Mas já é altura de andarmos para a frente, percebem?”

Linkin Park em 2000. Chester Bennington em primeiro plano

Linkin Park em 2000. Chester Bennington em primeiro plano

Nos comentários do vídeo de ‘Heavy’ no Youtube, alguém escreve: “Acho que todos ouvimos a canção mas ninguém percebeu”. E de facto, sob o revestimento de melodia amiga das rádios, encontram-se letras bastante diretas como “I don’t like my mind right now/Stacking up problems that are so unnecessary/Wish that I could slow things down/I wanna let go but there’s comfort in panic/And I drive myself crazy/Thinking everything’s about me”.

Ninguém poderá dizer se foi a reação dos fãs – que também vaiaram a canção nova ao vivo, recentemente – a agravar o estado de espírito de Chester Bennington que ontem, 20 de julho, foi encontrado sem vida na sua casa em Palos Verdes, na Califórnia. Mas o seu suicídio promete desencadear mais debates sobre saúde mental e depressão, nomeadamente no meio artístico.

Uma das últimas fotos de promoção dos Linkin Park, de 2017. Chester Bennington à esquerda

Uma das últimas fotos de promoção dos Linkin Park, de 2017. Chester Bennington à esquerda

“Não devemos sentir vergonha do que somos”

Nascido a 20 de março de 1976, em Phoenix, no estado do Arizona, Chester Charles Bennington era filho de uma enfermeira e de um polícia que investigava crimes de abuso sexual contra crianças. Foi ao pai que Chester contou que fora vítima de abuso por parte de um amigo mais velho, entre os 7 e os 13 anos, acabando por desistir de apresentar queixa ao saber se o abusador fora, também, vítima do mesmo crime.

Depois do divórcio dos pais, quando tinha 11 anos, o jovem ficou a viver com o pai e viciou-se em vários tipos de droga. Aos 17, mudou-se para casa da mãe que, ao descobrir os seus consumos, o terá castigado e levado a mudar de vida. Quando já pertencia aos Linkin Park, Chester terá começado a abusar do álcool, mas em 2011 garantiu estar “limpo”, por já não querer ser “aquela pessoa”.

Além do percurso com os Linkin Park, que só com o primeiro álbum, Hybrid Theory, venderam 30 milhões de discos em todo o mundo, o pai de seis filhos – e padrinho do filho de Chris Cornell – substituiu, entre 2013 e 2015, o entretanto também malogrado Scott Weiland enquanto vocalista dos Stone Temple Pilots. Admirador da banda desde jovem, mostrou-se na altura emocionado por estar a viver “um sonho”.

Segundo quem o conhecia, Chester Bennington nunca deixou de ser um fã. Em entrevista à Rolling Stone, em 2008, o próprio confirmava-o: “Acho que o aspeto mais importante do que faço é ser um grande fã. Posso tocar com muitos tipos que cresci a adorar: já cantei com o Chris Cornell, já toquei com os Metallica e os Black Sabbath e já interpretei canções com os Jane’s Addiction e membros dos Guns n’ Roses, juntei-me à festa de 40 anos dos Doors com os Doors e o Perry Farrell em palco – e fico: ‘Em que mundo é que vivo? Isto não pode ser verdade’”.

O último concerto em Portugal, no Rock in Rio-Lisboa, em 2014

O último concerto em Portugal, no Rock in Rio-Lisboa, em 2014

Rita Carmo

À frente de uma banda que nunca recolheu os favores da crítica, Chester Bennington foi, ainda assim, elogiado por conferir ao género onde os Linkin Park começaram por ser arrumados – o nu metal – uma abordagem vocal mais suave, menos “masculina”, e tem sido recordado por amigos e companheiros de ofício pelo profissionalismo e cavalheirismo.

“O Chester e os Linkin Park são as pessoas mais simpáticas que eu poderia ter conhecido e foram muito carinhosos comigo quando eu apareci na música”, escreveu no seu Instagram Ryan Adams, praticante de uma música que pouco se assemelha à dos Linkin Park. “Nunca me hei de esquecer de me sentir nervoso e deslocado numa das primeiras cerimónias de entrega de prémios a que fui e de eles virem ter comigo e acalmarem-me e darem-me força. Ele foi um verdadeiro cavalheiro comigo, naquele dia, e eu nunca me esqueci. Que a sua alma gentil, mas gigante, possa encontrar a paz”.

Chester Bennington morreu aos 41 anos, vítima – ao que tudo indica – de suicídio por enforcamento, no mesmo dia em que o seu amigo Chris Cornell, que pôs termo à sua vida em maio, faria 53 anos.

Numa entrevista que ambos os frontmen deram à Rolling Stone, há quase dez anos, dizia o homem dos Linkin Park: “Penso que há muita raiva na origem das minhas canções. Nunca escrevi uma canção sobre isso, porque acho que não deve interessar às pessoas. Mas não o escondo, porque acredito que não devemos ter vergonha ou medo do que somos. A vida é boa, meu”, dizia em 2008. “Podemos sentir-nos uma vítima ou podemos mexer o rabo e fazer o que queremos fazer. Se o facto de eu falar disto ajudar os miúdos, fixe. Mas eu sou só um tipo normal, sabes? Por baixo das minhas roupas não tenho uma capa”.