António Zambujo e Miguel Araújo no Coliseu de Lisboa: a grande loucura de dois bons rapazes
18.02.2016 às 2h08
Na primeira de 17 noites nos coliseus de Lisboa e Porto, os dois amigos trocaram canções, partilharam histórias e usaram o humor e a descontração para comunicar com o público rendido ao seu charme. “Obrigado por esta loucura”, agradeceu Zambujo
Dizer que António Zambujo e Miguel Araújo usam o humor auto depreciativo a seu bel-prazer será um eufemismo. Ontem à noite, na primeira de 17 datas praticamente esgotadas nos coliseus de Lisboa e do Porto, o alentejano confessou que o público que enchia a sala das Portas de Santo Antão serviria de “cobaia” às experiências que vem congeminando com o seu comparsa do Porto. “Amanhã já vai ser bom”, brincou, provocando o riso da plateia, uma e outra vez. “Afinal aquela coisa de isto estar esgotado era mesmo verdade!”, exclamou, por exemplo, quando as luzes incidiram sobre o numeroso público. E, quando Miguel Araújo deu o mote para certa canção, confessou entre risos: “Podiam ser várias!”. Toda esta descontração condiz lindamente com o ambiente destes serões (presumimos que o espírito da noite de estreia seja replicado nos próximos espetáculos, que se prolongam até finais de março). Em palco, frente a um cenário construído com antigas escadas das vindimas e lanternas, António Zambujo e Miguel Araújo – ou “dois gatos-pingados com duas violazinhas”, como se descrevem no final, ao chamar até si a imensa equipa que ajudou a montar o concerto – passam cerca de duas horas a cantar e tocar, naturalmente, mas também a trocar repertório, a estrear arranjos, a partilhar recordações e a flirtar com uma espontaneidade que os fãs valorizam.
Será difícil de perceber quem tem, no Coliseu dos Recreios nesta noite de invernia, mais fãs: se o homem que começou no fado, navegando hoje num pacífico oceano lusoqualquercoisa, se o performer tímido que saltou da banda onde ainda é guitarrista para uma improvável mas bem-sucedida carreira a solo. Palpável é a devoção dos presentes às suas canções (“Zorro”, “Readers Digest”, “Lambreta” ou “Flagrante”, da lavra de Zambujo, e “Anda Comigo Ver os Aviões”, “Os Maridos das Outras”, “Romaria das Festas de Santa Eufémia” ou “Balada Astral”, da de Araújo) e a forma como vibram com os momentos que, tudo indica, não estariam no guião. Por exemplo: a certa altura, o portuense confessa que, quando conheceu o alentejano – num tempo longínquo em que, em vez de esgotarem 17 coliseus, esgotavam “17 garrafas; hoje os nossos camarins parecem uma farmácia” – sentia alguma inveja da tradição musical da sua região. Afinal, o Porto, onde nasceu no final da década de 70, não tem presente uma ideia de música popular de raiz, ao contrário do Alentejo ou, num exemplo mais próximo da Invicta, do Minho. A música popular do homem dos Azeitonas acabaria, assim, por ser o cancioneiro dos Beatles, de Bob Dylan ou dos Rolling Stones, que os seus tios tocavam numa banda de covers. Araújo fala então da universalidade da "dor de corno" como inspiração artística (mais tarde, Zambujo ilustrá-la-ia com uma versão do brasileiro Lupicínio Rodrigues), quando o parceiro aproveita a deixa e conta que, quando ainda vivia em Beja, onde nasceu, se lembra de haver canções populares para todos os efeitos, até mesmo para acordar alguém. E é então que nasce este belo improviso, de imediato abraçado pelo público:
“Acorda, Maria, acorda
Acorda, Mariazinha
Quem tem amores não dorme
Senão de madrugadinha
Senão de madrugadinha
É que a gente se consome
Acorda, Maria, acorda
Quem tem amores não dorme”
Noutro dos momentos mais celebrados da noite, António Zambujo pergunta a Miguel Araújo como se sente por ouvir o coliseu em peso a cantar uma criação sua – “O Pica do Sete”, tema incluído no mais recente disco do bejense, Rua da Emenda. “Ah, está sempre a acontecer-me”, responde o nortenho. “Mas tu açambarcas as canções boas todas”, brinca, alimentando uma certa dinâmica de extroversão e introversão que serve bem à dupla, equilibrando a sua presença em palco. No fundo, e ainda que Zambujo – o "extrovertido" – deva mais às músicas populares brasileira e portuguesa e Araújo – o "introvertido" – à escola Rui Veloso/Carlos Tê, ambos são cantadores de histórias simples, de suaves segundos sentidos, partilhados sem moralizar. Juntos, encontram um terreno comum, seguro e harmonioso, onde não faltaram esta noite várias surpresas: na abertura, com “Foi Deus”, clássico de Amália habitualmente incluído nos concertos de Zambujo, Araújo começou por tocar guitarra elétrica, instrumento que convenceria o amigo a experimentar, mais tarde, em “Algo Estranho Acontece”, altura em que se remeteu ao contrabaixo. Foi também ao autor de Cinco Dias e Meio que coube cantar “Zorro”, um dos primeiros sucessos de Zambujo ou, já no encore, o também inescapável “Lambreta”. Uma versão de “Don’t Think Twice, It’s All Right”, de Bob Dylan, e uma rendição na guitarra elétrica do samba “Vai Passar”, de Chico Buarque, serviram igualmente de homenagem a algumas das grandes referências de Araújo, ao passo que Zambujo voltou a professar a sua admiração pelo madeirense Max, em “A Rosinha dos Limões”, ou pelo contemporâneo Samuel Úria, que para Rua da Emenda escreveu “Valsa do Vai Não Vais”, também cantada esta noite.
Empenhados em revelar as suas origens, os grandes campeões deste inverno fizeram-no de forma particularmente bela em “Fui Colher Uma Romã”, tradicional alentejano que, esta noite, Zambujo interpretou sem rancho de cantadores, mas com toda a emoção, ou em “José”. Primeira canção do último disco de Araújo, Crónicas da Cidade Grande, eis o retrato de um homem “médio e mediano”, retirado de uma multidão “com uma pinça” e analisado em toda a sua banalidade pelo atento cronista. É nesta observação do quotidiano, nas suas mais enfadonhas ou fascinantes dimensões, que António Zambujo e Miguel Araújo se encontram. Um chega descontraído, com uma só guitarra, fazendo leve troça do “estendal de guitarras” (e ukulele, contrabaixo e piano) do companheiro; outro classifica os homens abaixo do lixo das agências de rating (na muitíssimo celebrada “Os Maridos das Outras”), mas sempre com fina ironia. Entre a malandrice sugestiva de um, capaz de com um fio de voz fazer o impensável, e os jogos de palavras de outro (notável a jigajoga em “E Tu Gostavas de Mim”, que escreveu para Ana Moura), especialmente satisfeito quando entregue à guitarra, se joga uma cumplicidade rara e o sucesso desta incrível empreitada.
Um dos objetivos deste concerto, contaram a certa altura, era provar que são duas pessoas diferentes, ao contrário de todos aqueles que, na rua, os confundem. O outro seria evidenciar as raízes e origens das canções que os levaram em ombros até aos coliseus. Missão cumprida, num espetáculo sem pressa e sem espartilho, que até ao final desta residência promete crescer ainda mais. O lugar na história das salas nobres de Lisboa e Porto – e os acertados coros coletivos – já ninguém lhes tira.
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