Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Discos

BLITZ #45: Mão Morta - O princípio da história

Quatro primeiros discos reeditados na caixa Mão Morta 1988 - 1992.

É possível medir o alcance do presente de uma banda pela forma como gere o seu fundo de catálogo. Nos Mão Morta importa obviamente o legado, a história, o percurso - o presente (ou o futuro imediato...) nunca faria sentido sem as etapas que até ele conduziram. E isto acontece porque Adolfo Luxúria Canibal, Miguel Pedro e restante companhia nunca desviaram um milímetro da sua proposta inicial - a de criar uma música abrasiva com uma dimensão poética/literária carregada de ideologia ou, talvez melhor, de uma filosofia particular. Nos primeiros quatro álbuns que os Mão Morta agora reeditam, esse conteúdo programático é óbvio e resulta num dos melhores arranques de carreira registados no campo do rock feito em Portugal.

Em Mão Morta, as declamações possuídas pelo demónio de Adolfo Luxúria Canibal fazem das fraquezas força e injectam teatralidade num terreno que, à época, procurava ainda resolver questões de identidade. Os Mão Morta, como os Pop Dell'Arte seus contemporâneos, estavam perfeitamente sintonizados com a zona mais alternativa do rock internacional, mas nunca abdicaram de uma distinta portugalidade que passava obviamente pelos textos, mas que se insuflava também no próprio imaginário, que no caso dos bracarenses, nados e criados "à sombra de Deus", adquiria laivos de resistência (a)moral. A ambição artística dos Mão Morta é o motor que os conduziu até ao presente, mas que se fez sentir bastante cedo. Corações Felpudos deveria ter sucedido a Mão Morta num prazo mais curto do que o que o viu de facto nascer e talvez assim as diferenças se tivessem tornado mais óbvias. Mas à distância de 20 anos é possível ainda perceber como esta era uma banda à procura de resolver o problema da adaptação das suas insuficiências técnicas às visões particulares que tinham da música: Corações Felpudos é, assim, menos grito do que rugido contido, com momentos de experimentação com a tal ideia própria de portugalidade (como "Fado Canibal") e uma intenção de refinamento do discurso musical perfeitamente clara. O.D. Raínha do Rock & Crawl é avanço sem perspectiva de retrovisor: as batidas vão-se tornando menos marciais, a filigrana das guitarras vai-se tornando mais complexa e a ideologia marca a passagem de faixa para faixa, com a leitura de excertos de O Capital pelos músicos e um "Charles Manson" em que Adolfo confessa que no 25 de Abril "estava em Braga demasiado entretido a crescer para dar conta do que estava a acontecer". Há mais Stooges e menos Swans aqui, com a batida metronómica a suportar ruído, músculo e suor. E o tempo, definitivamente, tratou muito bem este disco. O último painel deste quadro é o singular Mutantes S.21, primeira incursão deliberada dos Mão Morta pelo terreno dos conceitos unificadores, com uma colecção de retratos que nos levam de "Lisboa" a "Amesterdão", "Budapeste", "Berlim", "Paris", "Istambul" e à mítica "Shambalah", entre outras. Musicalmente, é um triunfo rock sem mácula, com as guitarras em abandono eléctrico a suportarem a cinemática narração de Adolfo sobre o lado "errado" de cada uma dessas cidades. Inesperado foi o sucesso de "Budapeste", máquina oleada de riffs que rock and rollam sem pedir licença e que ainda hoje surtem efeito. Entre os Swans, o Nick Cave dos Birthday Party e dos Bad Seeds, os Stooges e os Sonic Youth, os Mão Morta construíram uma identidade eléctrica só sua, coroada por um Adolfo sempre a queimar, actor/cantor/poeta e agitador supremo, homem de mil máscaras e de uma só voz, queimada de cigarros e inteligente como poucas. Em vésperas de edição de um novo álbum, faz todo o sentido recuar até ao princípio da história.

Mão Morta 5/5 (reedição de 1988) Corações Felpudos 3/5 (reedição de 1990) O.D. Rainha do Rock & Crawl 4/5 (reedição de 1991) Mutantes S.21 5/5 (reedição de 1992) Texto de Rui Miguel Abreu