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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Opinião

Salvador Sobral

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Sobre a sorte de Salvador Sobral. Amar pelos dois já não é fácil, amar por toda a gente é impossível

Salvador Sobral é um intérprete dotado e um 'entertainer' nada comum. Quem não o viu em palcos portugueses, espreite como é recebido lá fora: é um 'crowd pleaser', seja em Itália ou na Letónia, não diz o que está no 'guião' (sente-se o ar fresco) e é aplaudido na sua espontaneidade. Não consta que o público lhe peça 'Amar Pelos Dois' a cada segundo, canção que nunca interpretou de maneira igual, procurando satisfazer e satisfazer-se. Dar e receber, como dizia Variações. Não deveria ser mais fácil de entender?

Já não me recordo de quem estava em palco naquela noite, mas as palavras 'assassinas' provenientes da fila de trás ainda ressoam nos meus ouvidos cada vez que a conversa do 'cliente tem sempre razão' irrompe pelo mundo das artes adentro. Foi mais ou menos assim: “Olhem-me a lata deste tipo: pagámos 20 euros cada um e ele não toca [a música do anúncio, o 'hit' do momento, seja lá o que for]. Se era para isto, ouvia em casa, em CD”. É por estas que em concertos mais íntimos há sempre alguém que, espirituosamente, lança um “toca aquela!”. Não é genuinamente um apelo para que o artista despache o quanto antes o único êxito que porventura logrou conseguir; é um exercício meta, cultura pop a gozar com a incultura pop.

Salvador Sobral, muito provavelmente, não vai cantar 'Amar Pelos Dois' todas as noites. Os Radiohead deixaram para trás 'Creep', o seu primeiro êxito, durante anos e anos. Não tocaram aquela. Tinham outras. Voltaram a 'Creep' em atos de generosidade, revalorizando uma canção batida, eventualmente gasta pela frequência com que povoou o nosso cerebelo, sei lá eu se também o coração. A relevância artística conquista-se tomando opções, e sim, cuspindo no prato que deu de comer. Os Radiohead não são (só) os Radiohead de 'Creep'; são os Radiohead de 'High and Dry' (nem de propósito), de "OK Computer" ou de "Kid A". Perdoem-me a insolência, mas até são os Radiohead de "The King of Limbs".

Salvador Sobral é um intérprete de mão cheia e um 'entertainer' nada comum. Quem não o viu em palcos portugueses, experimente espreitar como é recebido lá fora: aprende sempre uma canção local (não é um trecho, é um tema inteiro), seja em Itália ou na Lituânia, não diz o que está no 'guião', é aplaudido nos momentos de espontaneidade, nos atos não calculados. Não consta que, a cada pausa no alinhamento dos concertos, lhe peçam 'Amar Pelos Dois', canção que nunca interpretou da mesma maneira, procurando satisfazer e satisfazer-se. Fala várias línguas, não se esquiva ao contacto, dá e recebe. E por muito que estrague os planos a quem só quer receber dando pouco em troca, tem outro êxito capaz de pôr uma sala ao rubro.

Antes da vitória no Festival da Eurovisão ninguém o conhecia? Praticamente verdade. A sua gratidão veio depois, quando decidiu mostrar que, por ser impossível amar por todos, tinha outros afetos e outros talentos ao seu dispor. Salvador Sobral é um artista, não um prestador de serviços.