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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Opinião

Armie Hammer, Marilyn Manson, JK Rowling

Getty Images

De bestial a besta. Quando um ídolo desilude um fã, o luto não deve ser menosprezado

Num momento em que a “cultura do cancelamento” destrói carreiras num piscar de olho, Marilyn Manson, que nunca virou costas à polémica, viu-se no centro do furacão. Mas será fácil um admirador “cancelar” quase 30 anos de música?

Não posso dizer, à boca cheia, que sempre fui grande fã de Marilyn Manson. No entanto, aquilo que sinto que Brian Warner fez por mim foi transformar o metal, um género ao qual não prestava particular atenção, nos idos anos 90, em algo tremendamente sexy. Antes ainda de deixar “Antichrist Superstar” (1996) ir ao encontro de uma sofrível adolescência, recordo-me de comprar, e escutar até à exaustão, o CD single de ‘The Beautiful People’ – que tinha como ‘lado b’ uma versão fantasmagórica do clássico dos Eurythmics ‘Sweet Dreams (Are Made of This)’. Ouvi o concerto que deu na primeira edição do festival Sudoeste em direto na rádio, mergulhei de cabeça numa gótica ‘Long Hard Road Out of Hell’ (da banda sonora do filme “Spawn”), abracei o extraterrestre andrógino de “Mechanical Animals” (1998) e ainda escutei “Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death)” (2000) com alguma atenção. Depois de assistir a um concerto demolidor no antigo Estádio de Alvalade, em 2003, afastei-me dele.

Os rumores e as polémicas, que só ajudaram a engrandecer o mito de Manson, sempre me passaram um pouco ao lado, embora a ideia de o imaginar a esmagar pintainhos em palco me ter deixado com vontade de vomitar. Continuei a respeitar o seu percurso. Nunca o considerei verdadeiramente um ídolo, mas consigo identificar-me com os sentimentos contraditórios com os quais estarão a lidar, neste momento, alguns dos admiradores que o seguem, com fervor, há quase 30 anos. E consigo fazê-lo, apesar de ter cada vez menos figuras em pedestais, porque na era digital em que vivemos convivo diariamente, como todos nós, com os escândalos pessoais e as opiniões regurgitadas publicamente, de forma bastante irrefletida (ou não!), por pessoas que até admiro. Sei o quão difícil é colocar a arte num prato da balança e isolar o indivíduo no outro.

“Harry Potter” não teve em mim o impacto dos livros de “Uma Aventura” ou “Triângulo Jota”, mas imagino o baque que seria se ouvisse da boca de um dos escritores que marcaram a minha infância e adolescência aquilo que J.K. Rowling disse sobre mulheres transgénero. Um baque que, em abono da verdade, senti quando percebi que Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana que tenho lido fervorosamente desde que me ofereceram o seu manifesto “Todos Devemos ser Feministas” (2014), não só apoiou o discurso de Rowling como ainda lhe acrescentou uma ou outra pitada de preconceito. Não é fácil, mesmo que aqui estejamos “apenas” no reino da opinião e não no reino da ação, onde se inscrevem as atitudes alegadamente criminosas de Marilyn Manson. A desilusão de um fã da música de Warner não é comparável à dor de Evan Rachel Wood nem ao trauma que lhe ficará para a vida, mas não é bom menosprezá-la, à desilusão, e ridicularizar quem, agora, pensa duas vezes antes de ouvir um disco de Manson. O que também não é bom, nem bonito, é culpabilizar a(s) alegada(s) vítima(s). Da mesma forma como não foi bonito ver pessoas a tentar descredibilizar os homens que acusaram Michael Jackson de abusos ou perceber que há quem pense que um homem tão bonito quanto o ator Armie Hammer nunca poderia ser abusivo ou ter tendências canibais.

Isto tudo para dizer que a pessoa que me surpreendeu, em 2002, no documentário de Michael Moore “Bowling for Columbine”, por ser uma das poucas com um discurso inteligente e bem cimentado entre as que foram entrevistadas no filme, me deixou a pensar na forma como desrespeitamos o luto que devemos fazer quando descobrimos que aquela pessoa que julgamos bestial é, afinal, uma grandessíssima besta. E, a avaliar pelas acusações, um ser humano execrável, que se foi safando dos crimes que, alegadamente, cometeu com a conivência de uma indústria antiquada, misógina e a precisar urgentemente de reavaliar os seus valores. Os admiradores que continuam a defendê-lo, sem terem forma de verificar, comprovar ou negar, aquilo que lhe é imputado, também deveriam pensar bem antes de soltarem toda a verborreia que têm em si. Percebo o vosso conflito, mas sei que a negação e a raiva são as primeiras fases do luto.