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2020: o ano em que não vai haver música ao vivo

As recomendações da União Europeia, as decisões já tomadas por vários governos e, antes de tudo o mais, a continuação da circulação do novo coronavírus devem impedir a realização de festivais e outros concertos durante este ano

As recomendações para que não aconteçam ajuntamentos de pessoas enquanto não for encontrada uma vacina para a covid-19 vão ter um efeito devastador no sector cultural. Cinemas e teatros mas também museus e até discotecas deparam-se com uma situação de que não há memória. O sector dos concertos, e em particular os festivais de música - que no total representam uma movimentação de vários milhões de euros por ano -, serão devastados pela crise que se abriu com esta pandemia. É urgente encontrar um novo modelo de negócio para as empresas, para os músicos e demais trabalhadores que dependem desta atividade.

Se dúvidas ainda existiam sobre a realização de festivais em Portugal, elas começaram a desfazer-se nos últimos dias. O plano de regresso à normalidade ontem proposto pela União Europeia sublinha que festivais e concertos devem ser as últimas actividades a reabrir. Não há um calendário definido mas o espaço de um mês proposto entre cada levantamento de restrições atira a interdição de festivais para o final do Verão. Fim de jogo.

Vários governos na Europa anteciparam-se e começaram já a legislar nesse sentido. A proibição de festivais e concertos até setembro foi conhecida na Dinamarca ainda durante a semana passada. O país escandinavo, um dos mais liberais quanto à circulação de pessoas desde que a epidemia entrou naquele país, foi seguido pela França, Bélgica e Alemanha, que ontem e hoje dissiparam qualquer dúvida sobre a produção de festivais nos próximos meses. No Reino Unido, os grandes festivais como Glastonbury e o Download já tinham sido desmarcados. E nos Estados Unidos, o maior deles todos, Coachella, foi adiado para outubro.

Em Portugal não pode ser de maneira diferente. Não é crível que a Península Ibérica seja um oásis de concertos no meio de uma Europa deserta, até porque não existiria qualquer racionalidade económica para as digressões que estão anunciadas passarem apenas em Portugal e Espanha.

Talvez essa proibição, vinda do Governo, surja nos próximos dias; mas não vale a pena fazer muitas mais contas pois mesmo que fosse legal a realização de concertos seria pouco provável que promotoras, artistas, público e marcas estivessem alinhadas num movimento para levar por diante ajuntamentos de alto risco para a saúde, em que dezenas de milhares convivem em recintos de altíssima densidade populacional. Em Portugal e na Espanha, onde ainda se mantêm anunciados vários eventos musicais de grandes dimensões, pratica-se por estes dias o jogo do gato e do rato. Promotores não cancelam porque não há ordem do governo, artistas não desmarcam porque esperam que sejam os promotores a fazê-lo e as marcas continuam a deixar o marfim correr. Uma coisa é certa, o público deixou de adquirir bilhetes para os eventos que ainda se encontram agendados. A interdependência dos vários territórios no que respeita às grandes digressões não permite porém sonhar que acontecerão festivais em Portugal, em contraciclo com o resto do mundo.

Mesmo o empurrar com a barriga que representa a solução do adiamento levanta sérias dúvidas. O diretor do combate à covid-19 nos Estados Unidos, Anthony Fauci, já avisou que o reagendamento de Coachella, onde se juntam cerca de cem mil pessoas, para o mês de outubro o deixa “muito nervoso”. E a verdade é que existe uma grande diferença, financeira sobretudo, entre adiar e cancelar: a primeira permite legalmente não devolver o dinheiro dos bilhetes já adquiridos. Se assim não fosse, as empresas promotoras de espectáculos estariam neste momento numa situação de liquidez ainda mais difícil. Zeke Emanuel, especialista em bioética não podia ser mais claro quando esta semana disse ao "New York Times" que concertos e festivais só no outono de 2021.

Na melhor das hipóteses, uma vacina (e a sua massificação) para a covid-19 só será encontrada na segunda metade de 2021. Até lá, e porque não chegaremos à imunidade de grupo sem que o sistema de saúde entre num sério colapso, a festa que representa a partilha de música num dado lugar perante centenas ou milhares de espectadores será muito complicada. Este sábado, porém, tem lugar um evento que, de alguma forma, poderá simbolizar o Live Aid dos nossos dias. “One World: Together at Home” é mais um sinal, ainda que à escala planetária, da importância que podem vir a ter os muitos concertos em casa que temos visto surgir nas últimas semanas, sobretudo no Instagram. Porém, até agora não é claro o modelo de negócio capaz de monetizar este tipo de eventos, comuns nas redes sociais gratuitas. Como emprestar sustentabilidade e rentabilidade a estes concertos à distância? Sejamos sérios, o negócio da música ao vivo não voltará a ser como antes. Pelo menos durante os próximos meses.

Essa é a grande dúvida que hoje se levanta. Se é mais do que provável que não existam festivais ou concertos durante os próximos meses, que saída encontraremos para esse ato festivo de poder apreciar em comunidade o desempenho musical dos nossos artistas preferidos? A música pode não ser um bem de primeira necessidade para todos, mas é indispensável para as sociedades democráticas desde que terminou a II Guerra Mundial. Falta porém saber como e quando será esse regresso. Até lá, contem connosco.