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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Opinião

Idles no NOS Alive 2019

Rita Carmo

Idles ao vivo: amor, compaixão e um valente pontapé nos queixos

O disco gravado no Bataclan, em Paris, mostra a banda de Joe Talbot e comparsas em excelente forma

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

“I am a feminist!”, berra Joe Talbot, separando cada sílaba, antes de os Idles se lançarem numa interpretação explosiva de ‘Mother’, um dos temas do seu grandioso segundo álbum, “Joy As An Act of Resistance”. Ainda que não gostem de se definir como banda punk, é difícil ouvir esta frase-manifesto sem pensar numa outra declaração de intenções; se, há 43 anos, Johnny Rotten praguejava “I am an anarchist”, em 2019 aquela que é uma das melhores bandas rock da década abraça sem paninhos quentes o feminismo, a crítica da masculinidade tóxica, a defesa do sistema nacional de saúde e a necessidade de falar sobre a saúde mental que a todos nos falha.

Podia resultar moralista ou aborrecido, mas os Idles têm tudo o que é preciso para transformar estas mensagens de paz e inclusão em viciantes petardos rock. O mesmo é dizer que têm um sentido de humor acutilante, ao qual se junta a noção de que também são, ou já foram, parte do problema que criticam (‘Never Fight a Man With a Perm’, sobre os tempos em que Joe Talbot lutava mais com os punhos do que com as palavras, é dessa autocrítica um perfeito exemplo). E, pormenor nada despiciendo, são uma brutalíssima banda rock, quer em disco quer ao vivo, como saberão todos os que já puderam vê-los naquele misto de motim e comício que são os seus concertos (em 2020 regressarão para agitar Paredes de Coura).

Enquanto se espera por um terceiro álbum, no qual Warren Ellis, dos Bad Seeds, é convidado confirmado, os Idles – Joe Talbot na voz & slogans, Mark Bowen e Lee Kiernan nas guitarras, Adam Devonshire no baixo e Jon Beavis na bateria – fazem prova de vida num disco gravado há cerca de um ano, no Bataclan, em Paris.

Raras vezes os álbuns ao vivo acrescentam valor a uma discografia, mas “A Beautiful Thing…” é isso mesmo: um momento lindo de partilha e comunhão, em que os temas de “Brutalism” (a estreia de 2017) e “Joy As An Act of Resistance” servem de pretexto a uma festa de música veloz e contundente como um pontapé nos queixos, mas com a cabeça e o coração no lugar certo. E o público fervorosa e carinhosamente do seu lado.

“Respeitem-se uns aos outros, mostrem como adoram música ao vivo”, apela Joe Talbot logo no arranque. “Nada de agressão, mas amor e compaixão. Comprends?”.
Bien sûr, monsieur.

Texto publicado originalmente na revista do Expresso a 30 de novembro de 2019