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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Opinião

FEELS

Dois belos álbuns de 2019 que ainda vamos a tempo de descobrir

Um é folk, outro é rock. Que 2020 faça justiça aos lesados do indie de 2019

Fome e vontade de comer foram ímpetos desalinhados no rock independente em 2019, com os amplificadores a responderem melhor à mola punk (o lastro dos Idles a notar-se em Fontaines D.C. e Black Midi) e a pretensões arty no que antes era folk rock mais escorreito (Angel Olsen e Weyes Blood) do que à ânsia pós-juvenil estampada em t-shirt ‘sónica’. Talvez esta impressão explique que “Post Earth”, um über-excitante álbum de rock nervoso com espinhos pós-punk (mas, felizmente, sem aquela matematicidade do revivalismo da década passada), tenha sido tão pouco gabado.

Segundo volume de um quarteto feminino californiano, sucessor de um mais disperso conjunto de canções produzidas por Ty Segall (e, não ingenuamente, mais psych do que a atual oferta), “Post Earth” é um repositório magmático de inventivos ganchos de guitarra, riffs intensos, linhas de baixo com aspirações narrativas, distorção e polidez em sensuais partidas de pingue-pongue.

Se, ao longo dos 35 minutos de duração de “Post Earth”, sentir os anos 90 alternativos a cutucar, é pura sedução: são as próprias que assumem uma costela grunge (os cumes do tema-título), há ecos de Breeders (em ‘Car’) e um rock sónico com motor kraut (a esplêndida ‘Awful Need’) que não as deixam mentir. Uma generosidade em grande parte proporcionada pelo entrosamento notório entre as guitarras de Laena Geronimo e Shannon Lay, com esta última a dourar ainda mais o ano que passou com um excelente disco de estreia em nome próprio.

Se Segall descansou ao segundo álbum das Feels, empresta os seus créditos de produção em “August”, paradoxalmente o disco menos ‘garageiro’ que se possa imaginar, assente numa folk mágica enriquecida por contributos como o de Mikal Cronin (saxofone na lindíssima canção de abertura, ‘Death Up Close’). Lay é, nesta investida mais íntima, clara adepta do fingerpicking, rendilhando canções nostálgicas como ‘November’, ‘Past Time’ ou ‘August’, devedoras da iluminação dos Fairport Convention, da delicadeza de Nick Drake e da rarefação de Vashti Bunyan. Um feito tão inesperado como bem-vindo, a pedir que 2020 faça justiça aos lesados de 2019.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 4 de janeiro de 2020