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Opinião

A música ao vivo vai desaparecer? O editorial da revista BLITZ Especial Melhores de 2019, na íntegra

“Os últimos doze meses mostraram que a turbulência vai regressar. O caos tem encontro marcado no lugar menos provável: a música ao vivo”. A opinião de Miguel Cadete no editorial publicado na edição especial da BLITZ dedicada aos maiores destaques de 2019, que se encontra nas bancas

Se no ano passado a confirmação do sucesso do streaming garantia que estávamos de volta à zona de conforto, 2019 ensinou-nos que é necessário voltar a colocar os cintos de segurança. Se o Spotify confirmou que as grandes editoras, agora reduzidas a três, voltaram a mandar no negócio da música, os últimos doze meses mostraram que a turbulência vai regressar. E o curioso é que o caos tem encontro marcado no lugar menos provável: a música ao vivo.

Vale a pena voltar ao final do século passado, quando a música gravada começou a levar tareia e da qual só recuperou passadas duas décadas. Nesse introito, o porto de abrigo chamou-se concertos ou, se quisermos ser mais realistas, festivais. Foi aí, nos espetáculos, que a maioria dos artistas encontrou refúgio para fazer face à quebra inexorável de receitas que durante vinte anos foram o pão nosso de cada dia. Muitos chegaram a desfalecer em palco, mercê de agendas e digressões com mais datas do que aquelas que permitia a força humana e que os obrigavam a um esforço enorme. Os festivais multiplicaram-se, os concertos em nome próprio também. As grandes cidades, e Lisboa não escapou, passaram a ter uma calendarização musical que se assemelha a um banquete.

Até que a experiência fruída na música ao vivo, o pináculo de patrocinadores e diretores de marketing no século XXI, começa a ser posto em causa. Os custos para organizar, devido a exigências dos artistas mas, sobretudo, do público, começam a ser cada vez maiores. E com eles os preços dos bilhetes. Os cabeças de cartaz capazes de atrair multidões ao festivais dão mostras de fraquejar, e há anos, como o de 2019, em que a seca é notória. Mais notável, porventura, foram os efeitos – de início não detetados – que o domínio da música consumida em streaming impôs no negócio congénere dos concertos.

Ora, nos últimos meses todos sentimos que os topes das canções mais ouvidas nas plataformas de streaming são conquistados por um género de artista muito diverso daqueles que habitualmente ocupavam os pódios. Hoje é claro que são os artistas e as canções preferidas do público mais jovem – aquele que mais tempo tem para ouvir música e que, portanto, garante um número maior de plays para os seus favoritos – quem vai mais à frente neste novo negócio. E é esse reportório, bem como os seus intérpretes, que começa a ocupar o lugar dos habituais headliners. O fenómeno foi visível, e alvo de protesto, no NOS Primavera Sound. Como sucede, aliás, com os nomes já anunciados para o NOS Alive de 2020.

E não, esse não é apenas um render da guarda. É uma reviravolta no negócio do entretenimento de que poucos suspeitavam e que coloca aos comando o auditório mais juvenil. A antiguidade deixou de ser um posto. E as repercussões desse movimento podem provocar um terramoto. Entrámos em zona de turbulência. Coloquem por favor os vossos cintos.

BLITZ Especial - Melhores de 2019

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