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José Mário (1942-2019). A preto e branco

Era como uma fotografia de Sebastião Salgado. A preto e branco. Para ele, tudo era política. E, então, estava-se de um lado ou do outro

A edição, em junho de 2018 de um disco de canções perdidas pode ter sido o último acontecimento da carreira de José Mário Branco em nome próprio. Mas a sua participação na vida pública portuguesa já estava por demais enraizada para que esse fosse o seu derradeiro legado. Para ele, a questão não era quando mas sim onde. De que lado da trincheira. E o lado dele era quase sempre o outro.

Isso quer dizer que trocava as volta ao tempo. Em 2011, o FMI regressou a Portugal para juntamente com o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia emprestar 76 mil milhões de euros para sanar as contas públicas. Era o retorno da austeridade e nunca uma longa ladaínha que José Mário Branco tinha publicado originalmente em 1982 se tinha tornado tão atual. Minto, a canção, provavelmente a mais conhecida da sua obra, foi apresentada pela primeira vez ao vivo em 1979 e faria parte de uma peça de teatro que estreou um ano depois.

Continuemos no século XXI. A troika deixava marcas e os ministros do Governo liderado por Passos Coelho foram em inúmeras ocasiões recebido com Grandoladas, ou melhor, com versões de "Grândola Vila Morena", o hino de José Afonso, entoado por populares. A agitação foi uma ideia de outro cantor, Carlos Mendes. Mas quem produziu a canção, que fazia parte do alinhamento do álbum "Cantigas do Maio", foi José Mário Branco. Foi outra maneira de dar a volta ao tempo. O disco tinha sido publicado no Natal de 1971, há mais de 40 anos, e o seu artífice foi Branco. A história da canção foi contada por ele próprio ao Expresso. Como foi escrita, depois de um concerto no Alentejo, e como foi gravada por ele nos Strawberry Studios de Herouville, em França, mercê do exílio a que ele e José Afonso estavam obrigados. O arrastar dos pés na gravilha voltava a ser inspiração.

Foi aí em França que ele começou a sua carreira discográfica, se é que algumna vez se pode falar assim. A carreira era a vida e os discos uma forma de partilhar. Depois do seminário e antes de trabalhar em música para publicidade, José Mário Branco gravou, em 1967, Seis Cantigas de Amigo, quando já frequentava o exílio francês há quatro anos. O lugar, claro, era o da literatura portuguesa e do que ela podia então fazer. Como no disco seguinte, Ronda do Soldadinho, marcado obvuiamente pela guerra do Ultramar, uma missão, claro.

Seria porém depois de regressar a Portugal, com pompa e circunstância, que fundaria o Grupo de Ação Cultura, colectivo de geometrias variáveis que se dispunha a apontar a arma à burguesia por todo o país. Como? Recorrendo ao património musical português que andava perdido, apagado pelo nacional cançonetismo, mas a que Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça tinham deitado a mão. Era, como dantes, como sempre, uma ideia utópica, a de voltar a uma sociedade já destroçada pelo capitalismo e que parecia não fazer sentido quando Portugal não queria outra coisa senão sair do isolamento.

Como mais tarde viria a suceder com o fado. Latifundio da direita, seria recuperado pela esquerda, e em grande medida por José Mário Branco, quando na sua mais que relevante qualidade de produtor e diretor musical deu início à produção -integral até ao dia de hoje - da discografia de Camané. O primeiro disco não apócrifo do fadista, Uma Noite de Fados, conheceu a luz do dia em 1995. Um tempo em que o fado estava longe de estar na moda ou funcionar enquanto cartão de visita para turistas. Branco, que já tinha trabalhado com Carlos do Carmo, percebeu a sanha antiliberal e ousou recuperá-lo para a esquerda, lugar aliás onde o fado havia crescido quando circulava entre os meios anarco-sindicalistas antes de ser apropriado pelo Estado Novo.

Era, obviamente, uma canção de protesto, de extração popular. Como todas. Para José Mário Branco, e ele disse-o em inúmeras entrevistas, toda a canção era política. Mesmo aquelas que faziam parte do reportório de Marco Paulo, ou de qualquer outro cantor popular, pois agiam como legitimadoras do status quo. Era aí que tudo se decidia. De um lado ou do outro. A preto e branco. E a questão era interpelar, questionar e comover. Como numa fotografia de Sebastião Salgado.