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Dantalian's Chariot

A música do mundo bizarro

“A pop fez-se rock, o rock fez-se arte”. Entre o final dos anos 60 e o início dos 70, na galopante evolução da música popular, o negócio já não era o de enfeitiçar adolescentes. Bem-vindos à música esquisita e desafiante dos Soft Machine, Dantalian's Chariot, The Liverpool Scene, The Crazy World of Arthur Brown, Comus e muitos outros 'feiticeiros'

Pretende retratar uma travessia complicada, e tamanha aspiração está espelhada no subtítulo: “A Journey Through the British Avant-Pop/Art Rock Scene 1967-1974”. Com infalível aprumo, a Cherry Red cristaliza em três discos o período em que – entre o ‘Summer of Love’ e o fulgor prog – a música pop britânica fica esquisita. Um clique possível? O arrojo dos Beatles em ‘Rain’, repositório de experiências com fitas manipuladas, e sobretudo em ‘Tomorrow Never Knows’, aventura imersiva capaz de alienar fãs das franjinhas – o ‘negócio’, nesta galopante evolução da coisa pop, já não era o de enfeitiçar adolescentes.

Lullabies For Catatonics: A Journey Through The British Avant-Pop/Art Rock Scene 1967-74 - 3CD Cherry Red/Popstock

Lullabies For Catatonics: A Journey Through The British Avant-Pop/Art Rock Scene 1967-74 - 3CD Cherry Red/Popstock

1967, o ano de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e ‘I Am the Walrus’, é também o ano em que emergem dadaístas de Canterbury, The Soft Machine (que aqui dão início à contenda, com ‘I Shoud’ve Known’, ainda da fase Daevid Allen), e exploradores do espaço lunar a partir de Cambridge, Pink Floyd. Os primeiros deixam-se enredar pelos segundos – ‘Arnold Layne’ causou pasmo no guitarrista Kevin Ayers – e depois de contraposta a antítese, desvenda-se uma síntese composta de mudança. Afirma, iluminado, Robert Wyatt, citado no livreto desta edição: “Em termos de como amplificámos a nossa música, éramos um grupo rock, mas o que ouvíamos nas nossas mentes não era música pop. (…) A pop não oferecia espaço suficiente para a improvisação. De maneira alguma iríamos tocar uma canção duas vezes da mesma maneira”.

A pop rebentava as suas estruturas tradicionais, “abraçava o abstrato, a discordância e o surrealismo. A pop fez-se rock, o rock fez-se arte”, atenta David Wells, gestor do catálogo da Grapefruit, selo da Cherry Red para declinações de psicadelismo. Possíveis portas da perceção: ainda em mantras psych, The End (geridos por Bill Wylan dos Rolling Stones), Dantalian’s Chariot (acidez vulcânica), The Liverpool Scene (‘Tramcar to Frankenstein’, mescla catatónica de poesia, jazz e rock anárquico); na busca do sinfonismo intromete-se a pop barroca com Bachdenkel, Merry Go Round e os esplêndidos Zombies, aqui num exercício tétrico intitulado ‘Butcher’s Tale (Western Front 1914)’; o caminho para o soft rock é evidente em Pretty Things e 10cc (‘Somewhere in Hollywood’, fação Godley & Creme); uma abordagem mais agressiva e radical, porventura a mais estimulante desta escavação, está espelhada na dormência fúnebre dos Velvet Frogs (‘Wasted Ground’), no absurdo de The Crazy World of Arthur Brown (‘All Over the Country) e nos cogumelos mágicos dos Comus (desvairada ‘The Prisoner’). É um som sem volta atrás.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 24 de agosto de 2019

Conheça algumas das canções que constam desta edição na playlist que se segue: