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Ride

Ainda nos lembramos de olhar esgazeadamente para os sapatos? Este é um disco sobre os vícios que ficam

Se está a pensar em shoegaze, está a pensar bem. Se está a pensar nos Ride, ainda melhor

De olhos postos nos seus próprios sapatos, a música elétrica britânica virou-se, entre o final dos anos 80 e o arranque dos 90, para um psicadelismo caleidoscópico mais sonhador do que ácido (Madchester professava outras loucuras à distância), numas vezes mais pesado e contundente, noutras panorâmico e suavemente estonteado.

Chamaram-lhe shoegaze e este carimbo tão nebuloso como a música que lhe está associado foi aplicado a My Bloody Valentine (a glide guitar enquanto modelo possível), Slowdive, Chapterhouse e a todos os que se quiseram juntar – o teste de paternidade, para o qual foram convocados os oníricos Cocteau Twins e os Cure mais espectrais, deu resultados positivos nos que souberam, nessa viragem de década, conjugar pop sonhadora com distorção e riffs em lágrimas.

A cena que se celebrou a si própria (fixou em pedra o “Melody Maker”) e colheu antagonismo cortante em bandas como os Manic Street Preachers (um dos seus ‘ideólogos’, Nicky Wire, considerava os Slowdive “piores do que Hitler”) dissipou-se na natureza impositiva da britpop a meio dos anos 90 e desagregou, entre outros, os Ride, quarteto de Oxford que, à semelhança dos Slowdive e dos mais musculados Swervedriver, conseguem nesta segunda década do século XXI o feito de regressar com algo valioso para contar.

Dois anos após “Weather Diaries”, um disco em que as nuvens shoegaze dão lugar a um rock mais enxuto e escorreito, “This Is Not a Safe Place” é a evidência de que há ‘novas oportunidades’ devidamente aproveitadas. Aqui se explana, sem timidez mas também sem trejeitos gongóricos, o som de uma banda rejuvenescida, capaz de erguer canções acima da massa sónica – atente-se na viagem vagarosa de oito minutos que encerra o álbum, ‘In This Room’, guitarras cristalinas e erupções extáticas em diálogo cúmplice e respeitoso.

Recuando 50 minutos, encontramos o instrumental vaporoso ‘R.I.D.E.’ a estender o tapete às guitarras comestíveis e à voz maviosa de Mark Gardener em ‘Future Love’ (ou os Ride a mostrarem aos DIIV quem ainda manda aqui), o riff ‘automobilizado’ que propulsiona ‘Repetition’ antes do excitante noise ‘garageiro’ de ‘Kill Switch’ (The Jesus and Mary Chain sem acesso ao boião dos rebuçados) e a nostalgia de um verão dos anos 80 em ‘Clouds of Saint Marie’ contrastando com o rock direto e sujo de ‘15 Minutes’ (nuvens de pó expelidas das seis cordas de Andy Bell).

Que bem que lhes saiu.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 10 de agosto de 2019