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Opinião

Hand Habits, Julia Shapiro, Rose Elinor Dougall

Julia, Rose e Meg

A primeira vem das Chastity Belt, a segunda fez parte das Pipettes, a terceira foi a ‘rapariga-maravilha’ de Kevin Morby. Três discos de arejada nostalgia ‘indie’

Cada caso é um caso, mas nesta revoada de edições indie há, pelo menos, um ponto em comum: já conhecemos Julia Shapiro, Rose Elinor Dougall e Meg Duffy (Hand Habits) de outras andanças.

Julia é vocalista e uma das guitarristas das Chastity Belt, quarteto norte-americano que em três álbuns desconstruiu estereótipos feministas e a desadequação da vida adulta em música paradoxalmente outonal (guitarras nostálgicas transformadas em tapeçaria). “Perfect Version”, sua estreia a solo, versa sobre as mesmas ansiedades e incute em dez canções as tonalidades reconfortantemente sépias de Chastity Belt. Pequenas diferenças: há uma maior distensão na forma como soam as guitarras (a pintalgar menos a tela, como em ‘Parking Lot’), acabando a dinâmica de ‘Natural’, canção de abertura, por soar até ligeiramente deslocada, parecendo transplantada de um disco da banda-mãe; uma ligeira brisa shoegaze (‘Shape’) e a não inesperada dívida ao rock alternativo dos anos 90 (‘A Couple Highs’, com aquela dormência dos Smashing Pumpkins de “Siamese Dream”) acrescentam toques que expandem o que, liricamente, é um fechamento sobre si: “I’d like to learn a skill/ Something useful/ Then I’ll support myself, and I will buy a house/ I’ll live alone in it/ Somewhere out in the woods/ And I’ll feel new again/ I’ll be my own best friend”, canta em ‘Natural’.

Rose Elinor Dougall foi na década passada a ‘ave canora’ das inglesas Pipettes, trio fortemente inspirado nos girl groups dos anos 60. Após dois passos em falso (separados por sete anos), “A New Illusion” vem mostrar que, aos 33 anos, encontrou o seu lugar numa pop sofisticada, elegante mas não balofa, artilhada de ensinamentos folk e com um já conhecido travo psicadélico (é de família; o irmão mais novo é Tom Dougall, vocalista dos Toy). É um terceiro álbum a solo simultaneamente sóbrio, espectral e sonhador, em partes equilibradas instintivo e cerebral – aliás, na gaveta do ‘bom gosto’ de Rose cabem Broadcast, Stereolab, John Fahey, Hope Sandoval e Karen Dalton. Neste bem-vindo volte-face realçam-se as muito belas ‘Something Real’ e ‘That’s Where The Trouble Started’.

Os concertos de Kevin Morby nos últimos anos não causariam a mesma excitação sem a criatividade de Meg Duffy, guitarrista capaz de acrescentar pinceladas rock à maior tentação folk do norte-americano. Também colaboradora dos dois álbuns de Amber Arcades e senhora da onírica guitarra slide que se ouve na monumental ‘Seven Words’, de Weyes Blood, dedica-se agora mais intensamente ao veículo Hand Habits, que tem em “placeholder” um segundo álbum que bebe da honestidade carnal de Angel Olsen e do intimismo não menos cortante de Adrianne Lenker (de Big Thief). Estes atributos ‘sinceros’ são compensados por uma toada intencionalmente sonolenta (um dos seus discos preferidos é “Dragging a Dead Deer Up a Hill”, de Grouper) e contemplativa (‘Are You Serious?’, ‘Pacify’, ‘Jessica’), com a Stratocaster a não ser, inteligentemente, mais dominante que a guitarra acústica ou o piano – não se espere, pois, um ‘disco de guitarrista’, antes doze recantos onde o relaxamento seventies e uma dose sensata de fantasia folk nos embalam sem pressa.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 3 de agosto de 2019