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Fat White Family

O luxo não se lixa

Pouca gente terá reparado, mas um dos discos mais surpreendentes do ano vem de uma 'família' magra e macilenta da cidade inglesa de Sheffield

É uma declinação tipicamente inglesa. Experiência de vida em casas ocupadas em Peckham, no sul de Londres, várias inscrições de consumo de drogas no cadastro de troncos nus, a imprensa brit à procura da real thing e a virar no primeiro desvio antes de chegar à música.

A família magra e macilenta espatifa-se antes de mostrar serviço que se veja: em 2016, pouco depois de “Songs For Our Mothers”, o disco que algo inesperadamente os traria a Portugal (o concerto foi no extinto festival Reverence Valada), chateia-se – sai o guitarrista Saul Adamczewski para logo formar outra banda – e parece que é o fim.

Não é. Num salto de fé da editora Domino, recebe uns cobres para a diária, muda-se de Londres para Sheffield e remodela o seu garage rock displicente, descobrindo a dança e reencontrando o interior da sua cabeça. Chega “Serf’s Up” e até o desertor das seis cordas está de volta – parem, pois, os epitáfios; isto é uma fuga para a frente rumo à vitória improvável.

Contra o destino, a Fat White Family faz um álbum tão opulento como desconcertante, onde a rudeza de um back to basics (seria o nosso melhor palpite) é substituída por uma música só capazmente vislumbrada no topo de um arranha-céus (nem por sombras nos ocorreria tamanho feito).

O panorama é rico e luxuoso, entre o fumo cinemático dos Pulp de “This Is Hardcore” (a magnífica ‘Feet’), o art rock ritmicamente aditivado (‘I Believe In Something Better’, ‘Fringe Runner’), a preguiça de Mac DeMarco processada pelos Deerhunter (‘Vagina Dentata’) e fantasias suavemente orquestrais (‘Oh Sebastian’).

O sincretismo é tal que, depois de uma introdução de coro grego, não se estranha que o andamento glamoroso dos T. Rex ou uma espécie de baile 50s subaquático (‘Tastes Good With the Money’ e ‘Rock Fishes’, respetivamente) façam parte deste disco, que a surf music saiba casar tão bem com sintetizadores no pós-Suicide (‘When I Leave’) ou que o rock em 2019 possa ser levado em ombros por teclados e uma bateria automática (‘Kim’s Sunsets’).

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 20 de julho de 2019