Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Brilhai, diamantes loucos

Há belíssimas pérolas de pop/rock psicadélico na segunda metade dos anos 80 em terras britânicas. Quando os floreados indie desembocaram em Madchester e no shoegaze, quando o revivalismo Mod e a cena C86 se cristalizaram na eletricidade mais sonhadora. Música incrível que vale a pena trazer outra vez para a frente

Nunca satisfeita com os proverbiais apanhados de canções para caixote de hipermercado – o melhor disto, o melhor daquilo e tudo outra vez em versão lounge – a Cherry Red continua a sua cruzada geek, prosseguindo agora uma empreitada iniciada em 2016 ao estender o seu raio de ação ao que falta sinalizar do pecúlio da década de 80.

“Another Splash of Colour”, triplo CD lançado há três anos, apresentava o neopsicadelismo britânico da primeira metade da década: Soft Boys, Julian Cope, Television Personalities, Legendary Pink Dots, todos os madcaps de um movimento que bebeu da cena psych britânica dos anos 60 (Pink Floyd com Syd Barrett, Beatles entre “Revolver” e “Sgt. Pepper”, aqueloutros Nirvana, de Londres), mas também os que se deixaram permear pelo underground americano (mais ‘garageiro’, mais cru) encapsulado por Lenny Kaye em 1972 na compilação “Nuggets”.

“Losing Touch With My Mind” aplica o mesmo exercício à música editada nos anos compreendidos entre 1986 e 1990 na old britannia, servindo simultaneamente os intentos de retrato do espírito do tempo – há floreados indie a desembocar em Madchester e no shoegaze, revivalismo Mod, C86 a cristalizar em dream pop – e de colheita de garimpeiro, tamanha é a quantidade de pepitas resgatadas à obscuridade.

“Losing Touch With My Mind: Psychedelia In Britain 1986-1990”, um edição da Cherry Red (dist. Popstock)

“Losing Touch With My Mind: Psychedelia In Britain 1986-1990”, um edição da Cherry Red (dist. Popstock)

Por cada Stone Roses (‘Waterfall’ tocada ao contrário dá ‘Don’t Stop’), Primal Scream (‘Imperial’, jangle pop pré-“Screamadelica”) ou Telescopes (‘Everso’, magma mastigável), nomes que vislumbramos acima do solo, há uns Rosemary’s Children (cósmicos, dopados, na sublime ‘(At the) End of the Corridor’), os sempre confiáveis 14 Iced Bears (‘Mother Sleep’, novelo tribal) ou uns muito twee, via Sarah Records, Sea Urchins (‘A Morning Odyssey’, o elo perdido entre o segundo álbum dos Feelies e os primeiros EP dos Belle & Sebastian).

Esta é uma altura da música ‘alternativa’ britânica em que – escreve John Reed, diretor de catálogo da Cherry Red – “as bandas indie evitavam a anterior estilística pós-punk em benefício de um crescente fascínio pelos vários aspetos do rock dos anos 60”. “Grupos como os Primal Scream”, nota, “vestiam-se à moda dos Byrds ou dos Buffalo Springfield circa 1967; guitarras jangly e cortes de cabelo à tigela eram moda; versões de Velvet Underground, Stooges ou bandas obscuras ouvidas pela primeira vez nas compilações ‘Pebbles’ e ‘Nuggets’ tornavam-se lugar comum”.

Seria este regresso a termos mais básicos, primitivos e ‘fora de moda’ uma reação à música que reinava – assética e polida – nas tabelas de venda de final dos anos 80? Essa é uma das teses possíveis para que nomes como os Revolting Paint Dream – de Andrew Innes, também dos Primal Scream – atiçassem fogo dentro de um armazém (é a isso que soa a torrente sonora de ‘The Dune Buggy Attack Battalion’) e os Spacemen 3 (de Jason Pierce e Pete Kember), figuras centrais desta vaga, casassem “os riffs pulsantes dos Hawkwind com música inspirada pelos 13th Floor Elevators, Stooges e MC5”. O passado será brilhante.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 29 de junho