Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Big Thief

O grande golpe dos Big Thief

É estranho – e maravilhoso – o terceiro álbum de Adrianne Lenker e companhia, que acabam de lançar “U.F.O.F.”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Uma voz trémula, emoldurada por guitarra acústica e pouco mais, canta sobre extraterrestres e a bisavó, homens e mulheres, dor antiga e desgostos a estrear. No centro dos Big Thief, um quarteto indie radicado em Brooklyn, Nova Iorque, está Adrienne Lenker, cantora-compositora de 27 anos que, no terceiro álbum da banda que lidera, continua a fazer o mais improvável: ser a protagonista maior de canções emocionalmente intensas, sem para tal recorrer a qualquer tipo de ostentação. Nem sempre a falsa bonança se aguenta, porém, até ao fim da canção: em ‘Contact’, o sombrio mas apaixonante arranque de ‘U.F.O.F.’, o quase sussurro dá lugar, de forma algo inesperada, a um grito digno de filme de terror, como se toda a tensão acumulada ao longo de três minutos se libertasse, ali, de forma tão necessária como feia, gutural.

Ao longo do álbum, gravado numa cabana no campo, na região de Washington, o jogo entre luz e sombra é constante e elegante; quando irrompem, as guitarras elétricas, a cargo de Lenker e Buck Meek, sublinham o negrume de tudo, transportando-nos também para a “nação alternativa” dos anos 90, uma década em que, ao invés de fotocopiarmos hipsters irónicos, a estranheza era real – e valorizada. Os verdes e crus anos de Cat Power, a infinita mas bela tristeza dos Red House Painters, a gravitas dos Low, mas também o classicismo de Joni Mitchell e até o cânone Dylanesco passeiam-se por aqui, sem que as referências retirem identidade ao som dos Big Thief. Em ‘Cattatails’, por exemplo, os norte-americanos tecem uma peça tão deliciosa como difícil de localizar no tempo; é uma canção indie pop acústica, mas também podia ser um clássico folk/bluegrass desenterrado em 2019, sem grande pós-produção. “Violet's eyes, Violet plays/Going back home to the Great Lakes/Where the cattail sways”, canta Adrienne Lenker que, para evitar a impessoalidade do ‘me’ e ‘you’, trata as personagens pelo nome. Violet era a sua bisavó, e para a bisneta que em 2012 chegou a Nova Iorque, vinda de Boston, para trabalhar num café e dormir num armazém com mais dez pessoas, nunca é tarde para desfazer nós antigos. “A dor e o trauma são passados de geração em geração. A dor ancestral fica armazenada. Em vez de criticar ou ignorar as coisas mais violentas, tento abordá-las com luz e amor”, explicou à Pitchfork. “Na vida, tudo é passageiro. Relações, pessoas, a nossa forma física… Dizemos adeus à nossa infância, perdemos a elasticidade da pele, o cabelo e dentes. A vida é um processo de abandono”, ilustrou ao Independent (os Xutos resumiriam, e bem, com “a vida é sempre a perder”). “E por ser finita é que é tão doce”.

Em 2019, dificilmente escutaremos canções com uma tão grata noção de fim como ‘From’ (repescada do disco a solo de Lenker, “abysskiss”), ‘Open Desert’ ou ‘Orange’. Na verdade, todo o disco flutua como o sonho da ‘patroa’ dos Big Thief: o de construir uma ponte entre o terreno e o celeste. Ela é o coração de uma banda de corpo delicado mas ágil, líquido – e em verdadeiro estado de graça.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, a 18 de maio de 2019