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Weyes Blood

Uma mulher em estado de graça

“Titanic Rising”, o quarto álbum da norte-americana Weyes Blood (Natalie Mering, nome de batismo) é simultaneamente tudo o que queríamos e nada do que estávamos à espera. Um dos álbuns do ano

Com um sóbrio e imponente “Front Row Seat to Earth” (2016) atrás de si, Natalie Mering não poderia voltar, em 2019, à estética de singer songwriter confessional, guitarra acústica em punho e rarefação indie. Seria, porventura, um assumir de que a maior expansividade lhe seria desconfortável, que um voo mais alto baralharia a rota de alguém que se revelou no underground e que teve em Ariel Pink um farol, até certo ponto. Ficou claro, em estupendas canções com ‘Used to Be’ ou ‘Seven Words’, que o domínio de uma certa pop barroca dos anos 70 – aquela que se vestiu de soft rock para melhor comunicar – não seria valência para desperdiçar.

É este ilusório classicismo intemporal, no que ao artesanato musical diz respeito, que não nos espanta reencontrar em “Titanic Rising”; a real surpresa reside na forma completamente airosa como Mering consegue agora movimentar-se numa música espaçosa, grandiosa e, a espaços, sinfónica, mas sobretudo num território aventureiro que a levou, num laivo de bem-vinda sinceridade, a assumir que uma parte da sua investida se localiza entre Bob Seger, o heartland rocker do Michigan, e o mar de corais da irlandesa Enya, habitualmente remetida às irrelevâncias new age (esta tendência soberbamente plasmada na desafiante ‘Movies’, sintetizadores ao alto e violinos em voo livre).

Dançando sobre as canções com a segurança de uma voz secular (pense-se na agudeza de Karen Carpenter com os ângulos de Joni Mitchell), deixamo-nos enlevar pelo andamento larger than life de ‘A Lot’s Gonna Change’, pela parcimónia synth de ‘Andromeda’, pelo coro esfuziante de ‘Everyday’ ou pelas cordas pungentes de ‘Picture Me Better’, escrita para um amigo que já não vive. Estado de graça, costuma dizer-se.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, de 24 de maio