Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Lena d'Água

Rita Carmo

Estávamos todos a torcer por Lena d’Água: e ela ganhou mesmo

No concerto de apresentação de “Desalmadamente”, Lena d’Água brilhou não só nas canções novas, como nos regressos ao passado e nas versões de António Variações. “Sou uma pessoa feliz”, disse, e o público acreditou

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Para que, em junho de 2019, possamos estar reunidos no Teatro Villaret, em Lisboa, celebrando a segunda vida de Lena d’Água, vários planetas tiveram de se alinhar. A história tem os traços das melhores sagas – de glória, de redenção – e tem vindo a ser contada, com entusiasmo e paciência, pela sua protagonista, nas muitas entrevistas que vem dando em promoção de “Desalmadamente”, o seu primeiro álbum de originais em 30 anos.

Primeiro veio o revivalismo da sua obra, atlética e sensual, por parte de bandas como os Linda Martini (que surpreenderam ao fazer uma versão do clássico pop ‘Sempre que o Amor me Quiser'), Capitães de Areia ou Ciclo Preparatório. Reconfortada pelo carinho das gerações mais jovens, Lena d’Água, que entretanto se retirara para viver no campo, continuou sempre atenta ao que de novo se faz na música portuguesa, e acabou por ser convidada para participar na atual encarnação do Festival da Canção. O desafio foi-lhe lançado por Pedro da Silva Martins, compositor e guitarrista dos Deolinda, que acabou por ir além de ‘Nunca Me Fui Embora’, a canção que Lena d’Água levou ao Festival, e deu por si a escrever a totalidade dos temas que, em 2019, ouvimos e aplaudimos em “Desalmadamente”.

Depois, houve o encontro com Luís Nunes, mais conhecido como Benjamim, cujo disco de 2015, “Auto-Rádio”, tocou no autorrádio de Lena d Água, levando a um rendez-vous no CCB, e com os They’re Heading West, que a convidaram para as suas sessões na Casa Independente e acabaram como “banda da casa”, tanto em disco como em palco: ontem, à esquerda da mulher que todos queriam ver e ouvir, alinhavam-se Francisca Cortesão (além da guitarra, essencial nos coros), João Correia, Mariana Ricardo e Sérgio Nascimento. À direita, Benjamim e António Vasconcelos completavam um grupo que brilhou nos arranjos e na garra que emprestou ao espetáculo, sem nunca ofuscar a verdadeira estrela da noite.

A poucos dias de celebrar 63 anos, Lena d’Água entrou em palco com uma confiança e uma descontração que auguravam o melhor. De regresso às trancinhas que em tempos foram a sua imagem de marca, a cantora foi acolhida com uma ovação comovente, e o carinho que, sem qualquer condescendência, o público lhe foi emprestando ao longo da noite prova o que já pressentíamos: estamos todos a torcer por Lena d’Água. Porque lhe queremos bem e, sobretudo, porque as canções que levou ao palco do Villaret – as novas, as antigas e algumas versões de António Variações – merecem tudo.

Muito tem sido dito sobre a notável juventude de uma voz que continua a impressionar pela frescura; na divertida ‘Hipocampo’, Lena d’Água soa tão ágil como os passos de dança que encena em redor de uma das vinhetas que Pedro da Silva Martins pintou para si. Presente no concerto, tendo subido ao palco no final, o ‘artesão’ das canções fez de cada tema de “Desalmadamente” uma pequena biografia, enchendo ‘Opá’, ‘Queda para Voar’, ‘Bem que vos Avisei’ ou ‘Desalmadamente’ de espírito, humor e sentimento.

E depois há ‘Grande Festa’, o certeiro single de regresso recebido com um enorme coro por parte do público, instalando no Teatro Villaret, onde Lena d’Água ganhou realmente o Festival (fazendo coros com os Gemini, em 1978), um clima de concerto rock.

Também nos regressos ao passado, com a pop épica de ‘Perto de Ti’ ou a incontornável ‘Sempre que o Amor me Quiser’, toda a “equipa” de Lena d’Água se mostra como peixe na água, esbatendo as diferenças entre décadas: há tanto esmero dos músicos e tanta alegria no público quando em palco desfilam, velozes, a letra & a melodia de ‘Formatada’, como quando se viaja até aos anos 80 para recordar os êxitos luminosos “de outro Pedro”, Luís Pedro Fonseca (mentor dos Salada de Frutas e da Banda Atlântida).

Antes do final, com uma repetição de ‘Grande Festa’, agora com o público todo de pé, houve ainda tempo para uma emocionante versão de António Variações. Sua amiga e contemporânea, Lena d’Água já o havia glosado, em ‘Estou Além’, mas guardou para o encore um impressionante a cappella de ‘A Culpa é da Vontade’. O delírio dos espectadores com estas citações dão a entender que, depois de “Bohemian Rhapsody”, a biopic de António Variações poderá ser o próximo grande fenómeno de “música no cinema” em Portugal. Mas, por enquanto, a noite, e a festa, foram de Lena d’Água, uma artista em pico de forma, por cujo regresso cintilante valeu a pena esperar.