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King Gizzard and the Lizard Wizard

O que é que leva a salada?

Ao 14º álbum, os estimados King Gizzard & The Lizard Wizard foram à pesca de blues, mas apanharam outra coisa…

É daquelas perguntas a que qualquer garçom já teve que dar resposta, quando confrontado com a impertinência do cliente avesso a irromper ementa adentro para encomendar o marisco mais caro. Preferimos a via diplomática: “A salada pode levar o que o senhor quiser, mas não estaria porventura interessado no peixe fresco que os nosso chefs trouxeram hoje de manhã de alto mar?”.

Porque não? Os chefs chamam-se King Gizzard & The Lizard Wizard (Rei Moela – prosseguimos de guardanapo posto – e o Lagarto Feiticeiro) e nesta mesa já fomos muito felizes, especialmente nesse saudoso 2017 em que a fantasiosa dupla (na verdade, sete desvairados australianos) serviu a este comensal cinco excitantes refeições (entenda-se: álbuns), cada uma à sua moda.

Ao décimo quarto disco (não é ‘gralha’), a eclética pandilha anunciou – através do seu líder, Stu Mackenzie – que lançaria agora a cana de pesca em busca de um disco de blues, “mas as canções lutaram contra isso, ou talvez tenhamos sido nós a lutar contra elas”. “Por fim, deixámos que, desta vez, as canções nos guiassem. Permitimos que formassem as suas próprias personalidades e traçassem o seu rumo. Caminhos de luz, caminhos de escuridão. Esta é uma coleção de canções que passaram por viagens selvagens de transformação”, afirmou o multi-instrumentista à “Rolling Stone”. Porém, a faina é, em mares australianos, imprevisível: eles queriam dar-nos a provar o seu melhor peixe, mas na ponta do anzol estava, afinal, uma salada perfeitamente embalada. Acontece aos melhores.

Longe de nos mostrarmos esquisitos, voltamos ao início: o que leva, então, a salada? Leva um bocadinho de blues, mas com espuma de boogie rock (ementa bem anotada: ‘Boogieman Sam’, ‘Plastic Boogie’, ‘Cyboogie’), leva teclados robóticos, mas com a minúcia da cozinha molecular (‘Acarine’), leva pós de jazz esquizoide (‘The Bird Song’) e delícias acústicas de plasticina comestível (‘Fishing For Fishies’). Nada há a temer: é uma salada de ‘assinatura’, pejada de criatividade, mas sem perder de vista as raízes. Levamos o resto num taparuere, se não se importa.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 27 de abril de 2019