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Conan Osiris

Thomas Hanses

Vermelho, preto, branco e verde. As cores da vitória de Conan Osiris na Eurovisão

A canção portuguesa não foi apurada para a final da Eurovisão. Estou surpreendido? Nem por isso... Mas quem se ficou a rir no fim, sei bem quem foi

O mês de maio, que já segue a todo o vapor para o final, fica marcado em 2019 por dois grandes eventos europeus, com importâncias radicalmente diferentes, óbvio, mas com mais pontos em comum do que poderíamos pensar. Ontem realizou-se a primeira semifinal da Eurovisão em Telavive, Israel - país que, curiosamente, não fica situado no velho continente -; daqui a cerca de dez dias todos os países da União Europeia (e um certo "intruso" que está de saída) vão escolher os seus representantes no Parlamento Europeu. Este último é, claro, um importante momento político, já o primeiro gosta de defender, hipocritamente, permitam-me dizer, que não gosta de ter lá politiquices. Há várias razões pelas quais a Eurovisão devia ser renomeada para Euro-sem-visão. Essa postura de "somos um evento não político" é certamente uma delas.

Começo pelo mais flagrante: o facto de os cinco países mais poderosos da União Europeia serem pomposamente apresentados como os "big five", os "grandes cinco", grupo de "elite" composto pelo Reino Unido (o "intruso" de que falávamos acima), França, Itália, Alemanha e Espanha, e por isso terem passagem garantida à final. Isso significa que mesmo que a Espanha continue a apresentar canções tão medíocres quanto as que tem apresentado dos últimos anos (já escutaram a desta ano? Pavorosamente genérica), terá sempre lugar garantido na cerimónia de escolha do vencedor. Sem me alongar muito nas questões políticas, acrescento apenas mais isto: a grande parte das canções que passaram ontem à final representam países de uma certa posição geográfica europeia. É bonito vermos países vizinhos a votarem entre si? Claro que é! Mas terá sido realmente essa a razão pela qual Portugal não se apurou? Tenho dúvidas. Talvez o facto de a atuação de Conan Osiris ter sido uma atuação com as cores "erradas" tenha dado uma ajudinha.

Quando há alguns meses falei, de forma informal, com Tiago Miranda, verdadeiro nome de Conan Osiris, confessou-me que estava a "estudar" o conflito israelo-palestiniano e a decidir o que poderia fazer, nas entrelinhas, para chamar à atenção para o problema sem violar as regras hipócritas (palavra minha) da Eurovisão. Roger Waters pode não ter ficado contente com o facto de Osiris não ter boicotado a Eurovisão, mas tem razões para ficar orgulhoso dele. Como, de resto, eu estou. Falámos de cores "erradas", mas afinal talvez sejam as cores certas. A bandeira da Palestina tem vermelho? Tem. As rosas são vermelhas? Sim, senhor, são. E estiveram em palco. A bandeira da Palestina tem verde? Tem. Atente-se no viço da indumentária escolhida pelo artista e João Reis Moreira, o seu enérgico bailarino. Também há preto e branco na bandeira da Palestina? Há. De que cores eram os ténis usados pela dupla? Pois... Sem alimentar demasiado teorias da conspiração, é preciso ser muito ingénuo para ignorar tudo isto.

Falando agora da atuação, permitam-me ser parcial - Sou jornalista? Sou. Isto é um artigo de opinião? É. Está bem assinalado. Conan Osiris teve, de longe, a prestação mais vibrante da noite. Há quem não goste da canção. Claro que há, ninguém pode gostar de tudo. E felizmente que assim é. Mas escutaram bem as outras canções? Falava Salvador Sobral, há dois anos, sobre o fogo-de-artifício das canções. O problema não é o fogo-de-artifício em si, é o facto de ele estar lá para esconder a fragilidade das canções. Este ano não foi exceção. Poucas foram aquelas que me fizeram cócegas nos ouvidos (para não dizer nenhuma). A "irreverência" da Islândia? Já ouvi aquela canção antes, muitas vezes. A "gravidade zero" da Austrália? Belíssima voz, bom fogo-de-artifício... Memorável? Já ninguém se vai lembrar dela daqui a seis meses.

Esse é, aliás, um dos grandes problemas da Eurovisão... Que atuações vitoriosas guardo na memória, tirando a dos ABBA e Céline Dion? (Aviso aos euro-aficionados: não leiam as palavras que se seguem, por favor. Podem ferir suscetibilidades). Duas. Além da de Sobral, obviamente, por razões emocionais, e da da galinácea Netta, por razões de proximidade temporal, recordo-me apenas da vitória da drag queen Conchita Wurst (não inventou a roda, mas era uma bonita balada) e da de Dana International por ter sido o primeiro grande triunfo de uma artista transgénero num grande palco europeu e de 'Diva', canção defendida então pela artista israelita, ficar no ouvido. De resto, a irrelevância dos artistas que vencem a Eurovisão é quase total (salvo nos seus países de origem, em certos casos). Onde estão eles hoje? Ninguém quer saber.

Olhando agora para as mais recentes participações de Portugal no certame, desde que o Festival da Canção deu uma valente curva no sentido da originalidade e diversidade - palavras bem caras à Eurovisão, que perdem toda a força quando vemos muito pouca diversidade criativa ou originalidade representada no concurso (o facto de Portugal continuar a ser um dos poucos países a insistir em enviar canções interpretadas na língua materna é algo que devia encher-nos de orgulho, patriotismos à parte)... 'O Jardim' de Isaura e Cláudia Pascoal merecia ter ganho? Talvez não, mas também não merecia o último lugar. Salvador Sobral devia ter ganho? Provavelmente não. Porquê? Porque 'Amar Pelos Dois', canção com C grande, escrita pela irmã Luísa Sobral, era demasiado boa para ser sequer colocada numa competição com outras canções de tão baixo calibre. Voltando a Conan, e para terminar: "quem mata quem?". Não sei. Mas que se fica a rir no fim sei bem quem é. Volta, Conan, és o meu super-herói.