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Na Na Na. Já não percebo nada da Eurovisão

A guerra dos trolls

Entre o meio dos anos 80 e o início dos 90 vi todas as finais do festival da Eurovisão com o mesmo entusiasmo com que segui jogos de futebol e corridas de Fórmula 1: muito. O futebol ficou-me (ninguém é perfeito), mas nem corridas de carros ou cantigas eurofestivas chegariam ao meu século XXI. Foram prazeres que se perderam, magia que se esfumou.

Ocasionalmente lá espreitei um ou outro elenco eurovisivo e a conclusão foi invariavelmente a mesma, resumida em 3 M: Muita Música Má. Talvez tenha tido azar: dizem-me que apanhei o certame numa altura um tanto ou quanto 'pimba'. Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque, e o meu conhaque não vem desta destilaria.

A abertura do Festival da Canção português a uma série de compositores e cantores de primeira água renovou o meu interesse por este simpósio. Que apreciável grupo de bonitas canções aí surgiu nos últimos três anos (não apenas 'Amar Pelos Dois'). Acertámos à 'primeira' num incrível - irrepetível? - alinhar de estrelas; enganámo-nos à segunda ('O Jardim' era murcho); arriscámos à terceira ('Telemóveis' é, ouso dizer, demasiado alternativa para o ouvido 'médio'). Para fazer boas canções é preciso tentar; ainda bem que o fizemos.

Sobre justiça ou injustiça da eliminação portuguesa não tenho teorias vencedoras. Depois de 'Amar Pelos Dois', deixámos de poder usar a cartada do "perdemos porque isto não é uma canção à Eurovisão". Será a canção ideal alinhada com o espírito do tempo que se vive, será a melhor canção aquela que se apresenta desalinhada com tudo o que vigora? Umas vezes é uma coisa, outras vezes é outra. Valerá a pena ler o que o Mário Rui Vieira, também na BLITZ, tem a dizer sobre o assunto.

Não falo de eleições por acaso. Houve um momento, na noite de ontem, em que o resultado me surpreendeu verdadeiramente (e aqui volto à subjetividade como um turista relutante regressa a casa): como é que uma canção deplorável, interpretada de forma completamente desastrosa, consegue ficar entre os 10 apurados?

De imediato me ocorre um episódio (triste) do meu 7º ou 8º ano de escolaridade, quando numas eleições para Delegado de Turma toda a gente combinou votar no bombo da festa, o colega que noutra circunstância seria o último a ser perfilado. Alinhei na brincadeira e estou arrependido até hoje.

Poderá ter sido, precisamente, uma malandrice semelhante a proporcionar ao desastrado Serhat e à sua incipiente 'Say Na Na Na' o apuramento que ninguém previa de San Marino para a final. Malandrice que hoje, em 'internetês', se designa de troll-vote, isto é, voto no gozo. Não é mais apaziguador saber que uma canção é entronizada por ser desastrosa; apenas ajuda a explicar uma patetice transformada em problema que agora é preciso resolver.