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Manel Cruz no Capitólio

Cecile Lopes

Em paz com o seu passado, Manel Cruz mostrou no Capitólio, em Lisboa, um brilhante presente

Mais de duas horas de música foi a prenda de Manel Cruz e da sua banda aos fãs, neste Dia do Trabalhador. As canções de "Vida Nova", de Foge Foge Bandido e uma certa surpresa, no terceiro de quatro encores, encantaram o muito público presente

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No canto do palco do Capitólio, onde Manel Cruz e a sua banda deram esta noite um concerto com quatro encores, agacha-se atento Manuel Morgues. A muitos este nome nada dirá, mas quem tiver acompanhado os Ornatos Violeta na sua primeira vida, ou seja, nos anos 90, lembrar-se-á provavelmente do roadie de rabo de cavalo que, neste novo século, continua a segurar as pontas do espetáculo de um dos homens mais queridos da música em Portugal. É um pormenor, e pouco relevante, dirão; porém, o simbolismo da sua presença - à semelhança da resistência, em palco, de uma guitarra acústica com um autocolante de um tubarão, relíquia também de outros tempos - diz muito sobre o belíssimo momento atravessado por Manel Cruz neste ano da graça de 2019.

Com disco novo, "Vida Nova", acabado de sair, depois de um silêncio editorial de sete anos, o portuense continua a não querer viver da nostalgia - e bem podia, a avaliar pela autêntica loucura que se instala na sala quando, ao terceiro encore, oferece aos seus acólitos 'Capitão Romance', uma canção que envelheceu sem ganhar rugas, tornando-se num hino de ternura, melancolia e uma certa portugalidade indizível (haverá lá deixa mais saudosa & resignada do que "eu vi, mas não agarrei"?). Em palco e fora dele, os olhos brilham, amigos abraçam-se, as emoções falam muito alto e não restam dúvidas de que a única visita da noite ao repertório dos Ornatos Violeta foi um bálsamo para todos os presentes. Mas, ao contrário do que sucedia há uns bons anos, os fãs já não passam os concertos de Manel Cruz a pedir "toca Ornatos!" (poderão vê-los, afinal, no próximo verão), e o próprio Manel Cruz parece muito mais confortável ao encarnar, ao vivo, as várias peles que já vestiu. "Está mais em casa", partilhou connosco a fã Raquel, que não resistimos a citar.

Ao longo de mais de duas horas, Manel Cruz mostrou-se entusiasmado e descontraído, entabulando conversa fácil com os admiradores que enchiam a sala e lhe berravam os habituais piropos causadores de "vergonha malandra". Quando, depois de 'Anjo Incrível', uma das canções do novo disco, o teclado deixou de lhe obedecer, tentou resolver ("desliga e volta a ligar!", sugeriu alguém no público), contornou a situação tocando outra canção e, depois de solucionado o problema, não resistiu a confessar que a culpa havia sido sua e de um pedal de efeitos que comprou recentemente. A habitual honestidade na comunicação, aliada a uma alegria palpável por estar em palco, no qual entrou aos saltinhos, ajudou ao fluir do espetáculo, no qual Manel Cruz não enjeitou nenhuma das suas personagens: no palco do Capitólio estiveram o eterno amante do rock mais gingão (na atlética sequência 'Tirem o Macaco da Prisão'/'Cisma'/'Coisas de Manteiga',por exemplo); o artesão de uma espécie de teologia folk-rock (são numerosas as referências a Deus em canções recentes como 'Buraco', Cães e Ossos' ou 'Missa', em que a eucaristia acaba trocada por uma chamuça), mas também o cantautor intimista, sentado numa cadeirinha branca, sob um foco de luz, para sozinho cantar as singelas 'O Céu Aqui' e 'Reencontro'. Numa noite tão especial, não poderia faltar, também, uma das personagens mais carismáticas e convincentes de Manel Cruz, e em temas como 'Estou Pronto', da colheita Foge Foge Bandido, assistimos ao renascer de Manel, o monstro do rock, uma figura muito anos 90 que, no último de quatro encores, voltou a dar um ar da sua graça, na bem intensa e teatral 'Não Aldrabes'.

Cecile Lopes

Cecile Lopes

Guardadas no baú de Foge Foge Bandido ou na mais recente arca de Manel Cruz em nome próprio, as canções que neste feriado de 1 de Maio passaram pelo palco do Capitólio já assumiram, na sua maioria, várias vidas; os novos arranjos, desenvolvidos com imaginação e vigor pela banda, dão-lhes vivacidade e garantem-lhes, provavelmente, uma maior probabilidade de sobreviver à voragem criativa do seu autor. 'Reboque', por exemplo, que vimos apresentada numerosas vezes pela Estação de Serviço, assume agora uma apreciável forma rock; 'Ainda Não Acabei', single corridinho com muitos meses de rodagem radiofónica, presta-se, ao vivo, à repetição do mantra que dá nome à canção; 'Algures Perto do Mar', que ficou de fora do alinhamento de "Vida Nova", é uma das mais belas composições deste acervo recente, e desta vez revelou-se algo espectral e lodosa, um mar de inverno numa noite quente de primavera.

E depois há 'Como um Bom Filho do Vento', a canção-semente que desbloqueou o processo criativo do novo disco, a espalhar arrepios logo no começo do concerto; 'O Navio Dela', uma enorme canção cuja letra de génio foi prontamente entoada em coro pelo público, ou a intensidade de 'A Invenção da Tarde', todas provando, umas após as outras, que além de performer no topo das suas capacidades, Manel Cruz é um compositor inspirado e um letrista cuja prosa dificilmente se confunde com a de alguém.

Além de todos aqueles que acompanharam os Ornatos Violeta em "tempo real", e têm hoje cabelos brancos, uma família, dois ou três grandes desgostos e quatro arrependimentos graves, no Capitólio estiveram também fãs bem mais jovens, para quem as canções de Foge Foge Bandido se revestem, provavelmente, da mesma importância emocional que as de "Cão!" e "O Monstro Precisam de Amigos". E a seleção "bandida" que Manel Cruz lhes ofereceu - 'As Minhas Saudades Tuas', 'Canção da Canção Triste', dedicada a Nuno Prata, 'Canção da Lua', a perfeita 'Meu Amor Está Perto' ou "o bombom" 'Borboleta' - provaram que muitas vezes os mais novos até têm razão.

Manel Cruz no Capitólio

Manel Cruz no Capitólio

Cecile Lopes

Chamados a palco para quatro encores, Manel Cruz, Nico Tricot, Eduardo Silva e António Serginho agradeceram, emocionados, o abraço carinhoso e apaixonado do público em êxtase.

Cada vez mais oleado e inventivo nos arranjos e alinhamentos, o espetáculo que Manel Cruz oferece por estes dias é generoso e comovente, por tornar evidente que, no ano em que, como a Revolução dos Cravos, completa 45 primaveras, o nortenho fez as pazes consigo mesmo e com o seu passado, integrando-o de forma pacífica num presente de grande criatividade.

Num mundo em que tudo é progressivamente falível e temporário, celebremos a sua permanência.

Manel Cruz no Capitólio - alinhamento do concerto (sem os dois encores extra, com 'Capitão Romance' e 'Não Aldrabes')

Manel Cruz no Capitólio - alinhamento do concerto (sem os dois encores extra, com 'Capitão Romance' e 'Não Aldrabes')