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Helado Negro

Entre Devendra Banhart e Caetano Veloso: a doçura estival de Helado Negro

Uma ilha de psicadelismo aguado, no sexto álbum do norte-americano de origem equatoriana

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Foi numa visita ao Museum Modern of Art (MoMA), em Nova Iorque, que Roberto Carlos Langue, o homem que faz música como Helado Negro, começou a engendrar o conceito que orienta “This Is How You Smile”, o seu sexto álbum. Estávamos em 2018 quando o artista nascido na Flórida, filho de equatorianos, assistiu à leitura de “Girl”, uma short story de Jamaica Kincaid, originalmente publicada em 1978. Naquele conto, a escritora de Antígua narra uma série de conselhos que uma mãe negra dá à sua filha. Enquanto americano de primeira geração, Langue identificou-se e quis explorar a ideia em novas canções; o processo acabou por ser especialmente emocionante, como contou à Rolling Stone. “Chorei. Foi difícil, e não quero voltar a fazer um disco destes. Não por ter sido difícil, mas por ter sentido o que precisava de sentir para fazer este disco.”

Descobrir “This Is How You Smile”, porém, é uma experiência cem por centro prazeirosa, que não partilha com o ouvinte as dores de um parto tão pessoal. Cantado em inglês e espanhol, ao longo de 39 breves minutos, o sucessor de “Private Energy” é uma ilha de psicadelismo gentil, eletrónica aguada e um imenso oceano de soluções que impressionam pela criatividade mas, na sua estética lo fi, contornam o exibicionismo.

Numa altura em que a pop mais popular do planeta deixou de ser exclusivo dos cantores anglo-saxónicos (em 2018, houve várias canções em espanhol entre as mais ouvidas em todo o mundo), é salutar perceber que a abertura aos sons hispânicos se estende, também, ao indie e à pop mais experimental.

Em “This Is How You Smile”, que o autor descreve como “alguém a aproximar-se de nós, lentamente, durante 40 minutos”, há uma languidez estival que remete para a doçura de Devendra Banhart (‘Pais Nublado’, ‘Sabana de Luz’); um classicismo de cordas com steel drum que podia ser cantado por Caetano Veloso (‘Imagining What To Do’); voos rasantes a uma soul com ecos de Prince (‘Running’) e até samples de piano de Sufjan Stevens (‘November 7’). No fim, a língua não conta: o universo de Helado Negro é só dele e tão saboroso como este sonho insular.