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Cinematic Orchestra

Em 12 anos, o mundo mudou. E a Cinematic Orchestra continua a fazer música para nós

O primeiro disco dos britânicos em 12 anos é um emocionante manifesto de beleza e ambição sonora

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Doze anos é muito tempo. Mas, para Jason Swinscoe, o timoneiro da Cinematic Orchestra, este foi apenas o tempo necessário para recolher a matéria-prima de "To Believe", o impressionante regresso do grupo britânico aos álbuns de originais, depois de um silêncio prolongado. Se sobrevoarmos os discos ao vivo, de remisturas e uma banda sonora, desde "Ma Fleur" (2007) que a CinematicOrchestra não partilhava com o mundo canções novas. Desde então, quase tudo mudou, do panorama político ao paradigma tecnológico, o que se reveste de especial importância para uma banda que sempre fundiu a criação orgânica e a manipulação eletrónica. Com um mundo de possibilidades pela frente, Jason Swinscoe e o seu parceiro artístico de longa data, Dominic Smith, optaram por uma espécie de regresso às raízes. Em entrevista ao site xlr8r.com, o 'patrão' Swinscoe explica que "To Believe", título inspirado pela dificuldade em saber no que acreditar, em plena era das fake news, é "apenas mais um reset. Nos 12 anos desde o nosso último álbum de estúdio, muita coisa aconteceu, sobretudo no que toca à tecnologia. Tínhamos muitos brinquedos à disposição, mas preferimos fazer uma coisa mais despida e escrever do zero. Quisemos gravar os nossos próprios samples, levando os artistas para o estúdio e explorando texturas e ritmos, numa constante construção e desconstrução".

Entre a casa-mãe de Londres e Los Angeles, onde Dominic Smith estava a viver, a dupla 'maestra' da Cinematic Orchestracomeçou a registar as ideias para o seu quinto álbum de forma bem portátil. "Montámos um estúdio móvel, com um MacBook, um teclado MIDI, um microfone Neumann e o [programa] ProTools", explicou Domic Smith na mesma entrevista. "Tínhamos muito bom equipamento, mas só usámos aquilo de que precisávamos. Apreciamos as limitações do equipamento antigo; só nos deixam fazer certas coisas,o que nos obriga a ser criativos."

Entrar em "To Believe" pelo tematítulo, cantado pela revelação californiana Moses Sumney, é entrar pela porta (muito) grande; num falsete delicado, o músico soul estabelece, sobre um jogo de cordas arrebatador, uma ponte com 'To Build a Home', o gigantesco hit do anterior "Ma Fleur". Noutro disco, um tema desta envergadura seria suficiente para darmos a partida por ganha, mas em "To Believe" sucedem-se os golos vistosos: gravado num hotel em Londres, 'A Caged Bird/Imitations of Life' mostra Roots Manuva tão ágil no registo hip-hop como no cantado, não distante do classicismo de um Scott Matthew. Reminiscente do trabalho do norte-americano Peter Broderick, 'Lessons' é uma empolgante tapeçaria eletrónica de nove minutos que passam a voar, enquanto nos seus mais de sete minutos 'Wait for Now/Leave the World', cantado pela londrina Tawiah, se revela uma das mais comoventes canções da temporada.

Rico em pormenores e camadas, sem pontos mortos ou enfadonhos, "To Believe" é conciso na sua ambição e apaixonante na forma como articula ambientes tão sombrios como luminosos em canções de aura intemporal. Um dos grandes discos do ano até agora.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 30 de março de 2019