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O que se passa com as pessoas?

Uma das bandas mais fascinantes do cenário ‘indie’ norte-americano decide olhar para fora ao oitavo álbum. Abre-se um mundo

Bradford Cox, 36 anos, vocalista e guitarrista principal dos Deerhunter é uma das personalidades mais idiossincráticas do rock americano de tez indie destas vertiginosas (quase) duas décadas do século XXI. Na banda que empreendeu aos 19 anos criou uma obra sólida habitualmente localizada entre o pós-punk, o shoegaze e o dream pop, mas – frequentemente dentro de cada álbum – tão experimental como irremediavelmente melódica.

O que Cox faz não é catapultar elefantes cor de rosa para cima de nuvens; é algo que, defende assertivamente, é mais visceral e ensanguentado do que vago e difuso (chamem-lhe tudo menos ‘psicadélico’; foge a sete pés do ‘carimbo’). Cox é, igualmente, um arguto analista das suas incongruências, manias e perceções de si mesmo, ainda que em “Why Hasn’t Everything Already Disappeared” (“WHEAD”) deixe de se perscrutar exaustivamente, passando a auscultar o chamado ‘mundo lá fora’.“Eu era introvertido e lentamente fui-me tornando extrovertido, até que nada do que escrevo é, hoje, autobiográfico. Eu não estou aqui”, assenta Cox numa sumarenta entrevista ao site ‘Stereogum’ sobre o oitavo álbum da sua banda. “Uma das coisas que perguntaria a mim próprio, se fosse jornalista, seria porque é que ‘No One’s Sleeping’, que é sobre um acontecimento horrível [o assassinato da política inglesa Jo Cox às mãos de um apoiante de ideais de extrema-direita com perturbações mentais], é [musicalmente] tão animada. Não consigo responder, mas é algo que pergunto a mim mesmo”. Ao olhar para fora, Bradford Cox não deixa, pois, de se confrontar com o seu modo de operar.

Espectral, com suaves metais, num cruzamento inusitado entre a folk e o glam rock (Marc Bolan e Devendra Banhart vêm à memória), terminando numa cascata de teclados e bateria abafada, ‘No One’s Sleeping’ é uma das canções irrecusáveis de “WHEAD”. Antes, um lado trovadoresco emerge, glorioso, em ‘Death in Midsummer’ (o tal descentramento: “Come on down from that cloud/ And cast your fears aside/ You’re all here and there/ And there’s nothing inside”), cravo e guitarra rugosa a encontrarem-se a meio. A atração renova-se com ‘Greenpoint Gothic’, instrumental que tanto deve à cold wave de Gary Numan como aos (raros) desenhos florais dos germânicos NEU!, mas o que poderia ser apelidado de tepidez é logo atenuado com ‘Element’, outra canção onde o cravo se impõe, mas não com pretensões decorativas (“Pensa-se logo em pop barroca, mas eu digo ‘não, não, não’”).

A meio, antes de uma segunda parte mais ambiental (‘Détournement’, ‘Tarnung’, ‘Nocturne’, mais sintetizadores do que antes), reluz ‘What Happens to People?’, canção em dois andamentos alternantes, tão melancólica como sonhadora (mas com uma letra de desolação invernosa: “What happens to people?/ What happeneed to you?/ What happens to people/ They fade out of view” é, ainda assim, a parte menos aflitiva).

Gravado no refúgio de Cox no Texas, “WHEAD” conta com os préstimos de Tim Presley, dos White Fence, e da cantora e compositora galesa Cate Le Bon (que coproduz), e por cima de uma ‘coerência interna’ deseja afirmar a sobrevivência da própria banda. “Há uma razão para estar nos Deerhunter depois de tanto tempo. Estou aqui porque quero estar”, afirma ao ‘Stereogum’. “Nesta altura, o Lockett [Pundt, guitarrista] e o Moses [Archuleta, baterista] são meus irmãos. Sempre foram, mas depois do que aconteceu ao Josh [Fauver, ex-baixista da banda, falecido inesperadamente em 2018, aos 39 anos] percebi o quanto significam para mim”. O mundo está difícil; é bom que nos tenhamos uns aos outros.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 23 de março de 2019