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Opinião

Capitão Fausto

Rita Carmo

Tinha tudo para falhar, mas este amor vai perdurar

Onde se fala do novo álbum dos Capitão Fausto, “A Invenção do Dia Claro”

Esta banda tem um plano. Com um título que importa o homónimo mote dos escriptos de Almada Negreiros em 1921, o quarto álbum dos Capitão Fausto é uma busca constante de claridade, mas não aceitando que ela venha a qualquer preço.

Tomás Wallenstein, ainda na casa dos vintes, partiu para ele com um guião bem desenhado: a busca de uma resolução do dia seguinte capaz de satisfazer todos os envolvidos. Ou seja, a procura da sedimentação de um amor que vai e vem e vai, da sintonia entre anseios contraditórios, do encaixe improvável entre visões de vida que se desencontram quase por capricho. A procura de um lugar onde a dor e o prazer se equilibram sem contas pendentes.

Do outro lado há quase sempre um ‘tu’ que magoa e é magoado, que está distante depois de ter estado tão perto, a quem se pede perdão, a quem se fazem promessas. Existe, ao longo destas 8 canções estivais que o grupo empreendeu (não totalmente) no Brasil, uma vontade de, grosso modo, pôr as coisas a funcionar. Ou, já que pediram que fosse sincero, há aqui um amor por resolver.

Paradoxalmente, este é o disco menos denso dos Capitão Fausto, colocando definitivamente de parte o necessaire psicadélico, relegando para terceiro plano a pompa orquestrada (nada contra!) do disco anterior. Não preenche todos os espaços, deixa as portas abertas para que uma aragem natural substitua o ambientador, amansa guitarras que noutros tempos quiseram queimar.

“A Invenção do Dia Claro” é simultaneamente pop, pela simplificação de processos, e clássico, pela adoção consciente (e bem sucedida) do cliché da balada ‘Beatlesca’ tal como nos foi apresentado depois da contaminação prog e vários bigodes middle of the road (‘Amor, a Nossa Vida’ e ‘Final’, soft rock pré-yuppie entre o final dos anos 70 e o início dos 80, miraculosamente aceitável), pelo desaforo benfazejo do piscar de olho ao chorinho (mas fazendo-o em jeito da ‘nova’ pop brasileira dos oitentas, como em ‘Lentamente’), pelos coros femininos algures entre Jorge Ben Jor e a Banda do Casaco (‘Faço as Vontades’, ‘Sempre Bem’).

Tinha tudo para falhar, mas este amor vai perdurar.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, de 9 de março de 2019