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Sensible Soccers

(sob foto de) João Pedro Almeida

Aquele verão que parece mesmo que existiu

Os nortenhos Sensible Soccers continuam hoje a fazer a música para memórias inventadas de ontem

Ao terceiro álbum dos nortenhos Sensible Soccers, continua a ser um bem-vindo mistério que uma memória – engendrada, como se verá – de um certo Portugal se projete a partir de música instrumental tecida maioritariamente por teclados e sintetizadores. Se em “Villa Soledade” (2016), o imaginário era o das estradas nacionais hoje transformadas em cemitérios do otimismo e das promessas do progresso industrial dos anos 80, “Aurora” pinta – com cores estivais, sol cor de laranja a dourar corpos despreocupados e ligeiro arrefecimento noturno – uns muito lusos anos 90 do século XX, aqui convertidos em férias de verão gigantes saboreadas entre praia, discotecas imperiais no meio do nada e hits de FM.

Ambiental, paisagística (‘Um Casal Amigo’), mas com momentos de concisão pop (‘Telas na Areia’, ‘Chavitas’), a música dos Sensible Soccers é hoje – admite Hugo Gomes (um dos três cérebros de uma formação que já integrava Manuel Justo e agora conta com André Simão, baixista que fez parte de The Astonishing Urbana Fall, entre outras bandas) – “uma espécie de ilusionismo”. De rajada, toda uma justificação plausível: “pegamos em subgéneros e memórias musicais e tentamos dar-lhes uma roupagem nossa, mas há partículas que vão sendo sempre identificadas, sejam elas interlúdios de programas da RTP ou coisas mais obscuras como as bandas sonoras das telenovelas portuguesas dos anos 80 – nem sequer sabemos que músicas são aquelas e quem é que as fez, mas há uma ideia musical que foi preservada”.

O ilusionismo é assumido no campo dos conceitos: “passa sempre pela ideia que temos dessas memórias, que não são reais. É a forma como pensamos que as coisas aconteceram em momentos e situações em que não estávamos presentes, é transportarmo-nos para esse espaço e para esse tempo. Como em ‘Luziamar’, que é uma discoteca onde nunca estivemos”. O ilusionismo é também defendido no plano musical: “neste disco há solos de flauta em que é um sintetizador a emular uma flauta; há um som de clarinete que não é um clarinete que está a ser tocado. Há muito fingimento”

Com que ferramentas se conjura tamanho arsenal de memórias inventadas? “O uso do [Yamaha] DX7, que foi um sintetizador muito usado nos anos 80 e 90, já nos leva para essa fase. Ouvir sons de pássaros em músicas, se calhar, também. E onde a guitarra era uma voz principal, temos agora o baixo. O que parece soar a guitarra é, na verdade, o baixo depois de um trabalho de produção e sob o efeito de pedais. Resulta da procura de um som que seja mais uma voz e menos um sustento”.

Gravado numa residência artística em Arouca e produzido por B Fachada (que também toca sintetizador modular em três canções, entre as quais ‘Fenómeno de Refracção’, que conta com a locução de uma notícia na televisão sobre uma onda gigante no Algarve), “Aurora” consegue alternar entre a ficção onírica e o sincretismo numa só canção (‘Farra Lenta’), nunca depositando todos os seus anseios numa mera troca de papel de parede. Cheira a um antigo verão por descobrir.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, a 16 de março de 2019