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Mishlawi

Mishlawi: mais mel do que Drake

Uma voz sem igual no nosso país num disco de “falinhas mansas”

Quando, em 2016, o norte-americano, radicado em Portugal, Tarik Mishlawi surgiu no nosso radar com 'All Night', um cartão de apresentação que roça a perfeição, rapidamente percebemos que ainda ouviríamos falar muito dele. Sucederam-se singles certeiros atrás de singles certeiros - do infeccioso 'Always on My Mind' ao açucarado 'Limbo' ou ao inescapável dueto com o 'padrinho' Richie Campbell 'Boohoo' - e a construção, a pulso, de um percurso meteórico em palco.

Agora, o rapper (e cantor) que cresceu em Cascais estreia-se finalmente nos álbuns com "Solitaire" e terá o privilégio, concedido a poucos, de o desvendar com um concerto de apresentação na sala nobre do Coliseu dos Recreios, em Lisboa (9 de março), depois de duas datas no Hard Club do Porto (22 e 23 de fevereiro).

O registo 'falinhas mansas' mantém-se nestas novas 12 canções, mas em nome da sempre ultradesejada coesão não há aqui canções que façam um 'pop' gigante... algo que, acreditamos, tenha pesado também na altura de, de forma arriscada, decidir deixar de fora os temas que o transformaram numa das grandes revelações do hip-hop feito nos últimos anos em Portugal.

Com mais mel a escorrer da voz do que o canadiano Drake - o paralelo mais preguiçoso que conseguimos arranjar para uma voz sem igual no nosso país -, Mishlawi arranca um disco que diz ser virado para dentro (como um jogo de solitário) com o reconhecimento do esforço que o trouxe até este importante momento do seu percurso: 'Win Some Lose Some' é uma franca assunção de orgulho pessoal.

O registo seguro nunca é rompido, nem em temas mais upbeat, como 'New Thang' ou o viciante 'Audemars', interpretado a meias com Nasty C - a decisão de restringir as colaborações (além do rapper sul-africano, surge apenas aqui o nome do norte-americano Trace Nova numa dengosa 'Too Basic') é refrescante e admirável, especialmente tratando-se de um primeiro álbum.

Contudo, um nome de ouro ficará para sempre ligado a "Solitaire": Prodlem, um dos fazedores de beats do momento, emprestou o seu toque de midas a uma coleção de canções que tem já assegurada distribuição fora de Portugal e em mercados tão concorridos quanto os dos Estados Unidos ou Reino Unido. Um excelente início, com os olhos postos no futuro.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 16 de fevereiro de 2019