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Opinião

Primal Scream em 1994

Pedras rolantes

Apesar do sucesso notório de ‘Rocks’ e ‘Jailbird’, “Give Out But Don’t Give Up”, o quarto álbum dos Primal Scream, foi arrasado em 1994. 25 anos depois, Bobby Gillespie e companheiros mostram a primeira versão do álbum, com muito mais soul

Em 1993, os escoceses Primal Scream, intoxicados pelo sucesso de “Screamadelica”, voaram até Memphis (EUA) em busca de uma inflexão espiritual. Procuravam não uma redenção divina, mas um pouco de country-blues para a carola, de rock and roll sulista capaz de suster o cigarro na ponta dos lábios. Foram recebidos nos Ardent Studios pelo produtor Tom Dowd (nome ligado a um autêntico ‘quem é quem’ da música popular do século XX, de Eric Clapton a Aretha Franklin) e pela secção rítmica da FAME/Muscle Shoals – David Hood no baixo, Roger Hawkins na bateria; duas peças de uma máquina que deixou a sua marca em sucessos de Wilson Pickett, Staples Singers e uns certos Rolling Stones.

Com despesas pagas pela Creation, de Alan McGee, uma banda procurava o seu encontro com a história, mas com grandes probabilidades de falhar, refém de uma diária de cocaína e bar aberto (jurisprudência: Happy Mondays no Caribe, com produção da secção rítmica dos Talking Heads; isto é, o fim da Factory e dos próprios Happy Mondays). Zelando pela saúde do seu próprio bolso, McGee entregou os dois singles óbvios (‘Jailbird’ e ‘Rocks’) a George Drakoulis, produtor dos Black Crowes, que lhes conferiu uma mistura ‘moderna’ que eclipsa o beat original, e mandou gravar o resto outra vez.

“Give Out But Don’t Give Up”, apesar do sucesso notório de ‘Rocks’ e ‘Jailbird’, foi arrasado. Descrito como uma descarada emulação dos Rolling Stones entre “Sticky Fingers” e “Exile On Main St.”, o quarto álbum dos Primal Scream seria remetido à condição de proscrito. Parecia certo que 1994, a poucos dias da morte de Kurt Cobain, não queria um álbum de 1974; afigurava-se claro que o séquito dos Primal Scream não estava preparado para o choque térmico de um álbum de classic rock que vem depois de um banho ácido.

É, por isso, compreensível que Bobby Gillespie e Andrew Innes tenham só agora querido fazer justiça a um álbum ‘perdido’ que, ouvido hoje, ganha uma aura de intemporalidade. Na medida em que uma velhinha secção de metais, uma balada dorida, teclados em cascata boogie, coros soul e um ritmo retro soarão em 2019 a melodias de sempre e não a um negócio de ocasião. Clássicos, por fim.