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Felt

PP Hartnett

Balada da banda

O indie pop mais bonito da década de 80

Era tudo muito bonito – 10 anos, 10 álbuns, 10 singles, uma banda que se anuncia a si própria ao primeiro batimento cardíaco da década de 80 –, mas em 1986 Lawrence e os Felt não sabiam como seguir em frente sem fazer vítimas ao longo do processo.

Para trás, uma música poética mas nunca demasiado alheada de um desígnio pop, delicada e fervorosa em medidas generosamente servidas. “Ain’t got no money, ain’t got no fame/ And that’s why, I feel like giving in/ And all those songs, like ‘Crystal Ball’, ‘Dismantled King…’/ You know I love them all/ But oh, I still feel like giving in”: ‘Ballad of the Band’, single lançado em maio de 1986 e incluído na segunda leva de reedições da Cherry Red, conta a história de uma banda a falar de si mesma e de como é imerecida a sua sina – sem dinheiro, sem fama, quase veterana quando comparada com os artífices dos fugazes single of the week saídos do underground C86.

Um novo desabrochar estava, contudo, ao virar da esquina. Após a saída do guitarrista Maurice Deebank, Martin Duffy rapidamente se afirma como contraponto criativo da visão de Lawrence, e o som do órgão hammond e do piano elétrico molda os Felt à medida de novas aspirações, agora na editora que lançara The Jesus and Mary Chain e Primal Scream – a Creation.

Assim nasce o invencível “Forever Breathes the Lonely Word” (1986), a melhor jangle pop da década, que transforma angústia em joie de vivre graças a bálsamos como ‘Rain of Crystal Spires’, ‘September Lady’ ou ‘Grey Street’ – não é só um dos melhores álbuns do indie dos anos 80; é um dos melhores discos de sempre.

“Poem of the River” (1987), apenas 26 minutos, prolonga o estado de graça com os arranjos florais de ‘Stained Glass Windows in the Sky” e o jeito dengoso de ‘Riding on the Equator’ (magníficas guitarras de cristal), sob produção de Mayo Thompson, dos Red Crayola.

Num continuum implacável, a banda descobre o Dylan de finais de 60 num “The Pictorial Jackson Review” (1988) conciso e cintilante, pontuado por um acalento insuperável – é o último grande álbum dos Felt, que no mesmo ano editam um disco de oddities lounge-jazz compostas pelo teclista Martin Duffy e o baterista Gary Ainge (“Train Above the City”), e em novembro de 1989 se despedem com o mais descontraído e amansado “Me and a Monkey on the Moon”, sintoma da pop britânica dos anos 90, completado com o single em vinil ‘Space Blues/Tuesday’s Secret’. Um tremendo acenar de adeus.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 12 de janeiro de 2019

  • UK, 1986

    Opinião

    Há trinta anos, os Dire Straits dominavam a tabela de álbuns no Reino Unido. As músicas mais ouvidas eram de Billy Ocean ou Chris de Burgh. E, no entanto, ele (o Reino Unido) movia-se: o indie pop “nascia” com uma cassete do New Musical Express que apresentava Primal Scream, McCarthy, Pastels e Wedding Present a quem já tinha no coração os Smiths ou os Felt. Bendita a hora