Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Vontade de mudar

Três álbuns depois, os barcelenses Glockenwise puxam o lustro ao rock e ‘descobrem’ a língua portuguesa. Abre-se um mundo

À primeira vista, há um elefante no meio da sala. Primeiro assusta-nos, depois abraça-nos. Ao quarto álbum, os Glockenwise já não servem o mesmo garage rock de “Building Waves” (2011) e “Leeches” (2013), também não cortejam de forma tão óbvia a guitar music britânica dos anos 80 como em “Heat” (2015). Soam mais claros, menos enevoados, mais atléticos, menos dormentes. Cantam com naturalidade num português que não é denso nem seco, que encontra um lugar raro onde a fluidez do sentido ganha à artimanha lúdica. A música – um arquipélago atlântico “entre os Smiths e os Sonic Youth, entre os GNR e os Devo” – não descura uma plasticidade que os aproxima mais do que nunca do epíteto de banda pop sem peneiras, artilhada com canções prontas a salvar o próximo. “O rock de guitarras dos anos 80 e 90 ainda está lá um pouco, mas acabou por amaciar quando percebemos que tinha que haver muito lugar para a voz. Se me estou a dar ao trabalho de fazer letras que querem dizer alguma coisa, então não podemos fazer um disco à My Bloody Valentine”.

Do trio, quem pega na caneta é Nuno Rodrigues (voz, guitarra), que já enquanto Duquesa experimentara, em idioma nativo, tecer loas ao ‘Norte Litoral’. Diz-nos que “o português não foi tanto uma decisão quanto um acidente de percurso” porque isto não era para ser bem assim. “Eu tinha proposto ao grupo fazer uma coisa muito ambiciosa, um ‘disco-espelho’: gravar as mesmas músicas, com arranjos ligeiramente diferentes, em português e em inglês. Começámos em português, mas depois houve uma certa indisponibilidade emocional para levar o processo até ao fim. Aquilo estava a soar-nos perfeitamente bem assim, era exatamente o que queríamos dizer, ninguém estranhou e ficou genuíno”.

‘Corpo’, guitarras a rugir no arranque, começa como declaração de intenções: “Vontade de mudar/ e de ter passos para dar/ Para acumular às desistências/ eu tenho boas referências” – anuncia a ‘guinada’ mas ainda com uma bravura herdada do rock mais poeirento. As ilusões de continuidade ‘matam-se’ em ‘Plástico’, enorme futuro single de jangle pop outonal (“Fazem um ar zangado/ de quem não quer falar/ Cruzam os olhos de lado/ com medo de espreitar/ Têm cuidado no passo/ graça de artista só/ Muitas manias no trato/ a mim só me dá dó”) e no expedito ‘Moderno’ (“Sou tão moderno que/ Não respiro ar”), exemplo da nobre arte de casar música airosa com letra cruel q.b., capaz de olhar para fora e para dentro com igual transparência – “Eu queria escrever sobre o pós-modernismo, mas não fiz disso tese porque acabei, de uma forma completamente pós-moderna, a falar de mim”.

Há um quotidiano desassombrado a comandar “Plástico”, visível nas adoráveis ‘Dia Feliz’ (refrão: “Hoje foi um dia feliz/ tratei o que tinha a tratar/ voltei de onde tinha de vir/ Hoje foi um dia feliz/ nada de novo a relatar/ e então, como foi para ti?”) e ‘Sempre Assim’, uma espécie de olhar nostálgico sobre um presente afinal não tão cinzento como poderia parecer (musicado com riffs bojudos à indie rock dos noventas, tal como seriam traduzidos pelas Pega Monstro). “Quem tem que pagar uma fortuna por 58 metros quadrados não pode estar satisfeito, não pode pensar em ter filhos. Esse gajo não está feliz, não quer que as coisas fiquem sempre assim. Mas o raio de luz que existe em mim lembra-se de todas as pizzas que comemos no sofá a ver ‘Seinfeld’ e fica feliz”. Simples.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 2 de janeiro