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La Luz

O rock é das mulheres, parte 33435

Rumo ao sol: La Luz

Nascidas na pluviosa Seattle, no nortenho estado de Washington, as ianques La Luz descobriram em Los Angeles, na sulista Califórnia, a razão de ser do nome de batismo. Mas mais do que uma questão de geografia, neste quarteto formado em 2012 importa o tempo: à vista desarmada, as La Luz provêm dos anos 60 do século XX na forma e na substância.

Partindo de um imaginário que designam apropriadamente de surf noir, colocam na mistura doses certas de surf music (de Link Wray a Dick Dale), girl groups de doo wop (Shirelles, Marvelettes…) e rock and roll ‘garageiro’, finalizando com um glacê de harmonias vocais aéreas e sonhadoras.

Os riffs de guitarra de Shana Cleveland são de algodão, ecoam com leveza e doçura, contrastando com a neurose do teclado de Alice Sandahl (pesado, afirmativo), simbiose apresentada na dupla de abertura de “Floating Features”, terceiro álbum da banda: o tema-título, instrumental, introduz a cavalgada empertigada, à spaghetti western, de ‘Cicada’, um apetite tex-mex que, algo surpreendentemente, não será despertado amiúde.

Com jeitinho, a música deriva para um indie rock levemente narcótico e com insinuações psych (à moda dos adoráveis Raveonettes, no início da década passada), como na belíssima ‘Mean Dream’, inicialmente envolta em suave tontura e flagrantemente espectral no refrão, ou na tensa ‘California Finally’, guitarra solo a desenhar cristais.

“Floating Features” – que sucede a “Weirdo Shrine” (2015), produzido pelo feiticeiro rock Ty Segall, e lhe apara as arestas – é um disco que delimita em 35 minutos uma espécie de reserva natural, onde baladas para dançar cheek to cheek (‘The Creature’) convivem harmoniosamente com o fogo lento da exotica (‘My Golden One’) e pinturas rupestres de jangle pop (‘Lonely Dozer’).

Melhor ainda, termina não em coda, mas sublinhando todas as virtudes das anteriores dez canções, com a quase súplica de ‘Don’t Leave Me on the Earth’, derradeiro (e subitamente interrompido) vestígio de um disco que, sintetizando tantos passados, só poderia ser deste tempo.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 15 de dezembro de 2018