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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Opinião

Andy Shauf

Descobrir 2016 em 2017

Depois da acalmia editorial do período das festas, os novos discos começam a “pingar”. Mas ainda há pérolas do ano passado por escutar – aqui ficam duas dicas

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Não há razão aparente para case/lang/veirs, o primeiro disco da tripla vencedora Neko Case, k. d. lang e Laura Veirs, me ter escapado até aos primeiros dias deste ano. Sabia que, em 2016, esta espécie de supergrupo se tinha reunido para gravar canções compostas e interpretadas por todas mas, por incúria ou esquecimento, não prestei a «Best Kept Secret» ou «Down I-5» a devida atenção.

O caso é mais grave dada a minha paixão de longa data pela obra de duas destas mulheres: Neko Case, uma força da natureza cuja voz imperial continua fogosa como sempre, e Laura Veirs, mimosa e menineira como ela só, em canções de inspiração não necessariamente alegre como «Song For Judee». A ideia de criar este «trio fantástico» foi, porém, da mais veterana k. d. lang, que lançou o isco a duas das melhores cantoras-compositoras da sua geração num e-mail que teve resposta inequívoca («SIM!») em coisa de meia-hora.

Ao contrário do que muitas vezes sucede quando na mesma banda ou no mesmo disco se reúnem talentos e egos avolumados, em case/lang/veirs os poderes de cada super-heroína fluem às mil maravilhas, e sem atropelos, num álbum de canções cristalinas. Ainda vão a tempo de descobri-lo.

Passados poucos dias de me penitenciar por este atraso, o Spotify faz-me uma sugestão que prova que os algoritmos nem sempre são ignorantes ou perniciosos. Andy Shauf e The Party foi a recomendação do serviço de streaming, certamente baseando-se nas minhas escutas recentes. E que grata surpresa tive ao descobrir, mais uma vez com meses de atraso, este músico canadiano, espécie de menino-prodígio da pequena cidade de Saskatchewan. A terra onde cresceu, filho de pais com uma loja de instrumentos musicais, tê-lo-á inspirado a escrever The Party, terceiro álbum desde 2009 e primeiro com distribuição por uma editora de renome (a ANTI, casa de Tom Waits ou Neko Case).

Embora não descreva The Party como um disco autobiográfico, as personagens que habitam as suas canções são figuras de uma terra pequena como a sua. «Quis que o disco parecesse uma casa com coisas diferentes a acontecer em várias salas, durante uma festa. É um conceito muito vago», explicou ao Myspace.

Além do conceito, importante é mergulhar nestas canções de finíssimo recorte e melodias viciantes, que conseguem soar simultaneamente familiares e apelativas, como que convidando os nossos ouvidos a perder-se nos seus recantos. Fãs de Elliott Smith, Jonathan Wilson ou Josh Rouse nos seus verdes anos poderão apaixonar-se por Andy Shauf, que tem vindo a ser comparado, também, a Neil Young ou Randy Newman. E por muito tarde que o tenha descoberto, este The Party veio bem a tempo de musicar a primavera pela qual (já) suspiramos.