Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Listas

20 canções da música portuguesa que nunca deveríamos ter esquecido

A música que a memória esquece, mas que a internet guarda. Fomos escavar fundo e resgatámos pérolas da música portuguesa dos últimos 40 anos que o tempo se esqueceu de aplaudir, mas que ainda vamos a tempo de (re)descobrir. Por aqui passam nomes tão diversos como Clube Naval, LX-90, Cosmic City Blues, Ithaka, Pinhead Society, Um Zero Amarelo e até as esquecidas Kutchi-Kutchi. Música que (in)convenientemente o passado escondeu e o tempo apagou, mas que ainda está à nossa espera

As playlists são como os caldos ou as reduções culinárias: uma concentração de sabores que aproveita o melhor de cada época, de cada escola ou temática, para apresentações bem “empratadas”, mas que tendem a deixar de fora muitos outros “nutrientes” igualmente saborosos. E é assim com a música também. Depois de tantas compilações – e playlists.... – com o melhor dos anos 80, dos anos 90 ou do arranque deste milénio, com o melhor do rock que se fez e faz em Portugal, ou com as canções de amor, de revolução, de verão ou de qualquer outra estação, ainda há cantos e recantos da nossa memória que parecem não caber em nenhuma dessas gavetas, música que (in)convenientemente o tempo por alguma razão esqueceu, que as rádios já não tocam, que não mereceu relançamentos mediáticos e que, no entanto... existe.

Partindo ainda dos alvores dos anos 80 e só nos detendo já a meio da primeira década deste milénio, fomos em busca de música que a memória coletiva (quase) esqueceu, música que o tempo nem por isso consagrou, música que, nalguns casos, mal foi escutada quando saiu. E por aqui se encontram nomes conhecidos e outros que não o são, nomes que conseguiram agarrar-se ao futuro e conquistaram um lugar no presente e outros que nunca escaparam do passado, esse lugar por vezes escuro onde certas jóias parecem perder o brilho.

E há por aqui de quase tudo: pop leve e saltitante e música séria, daquela que queria ajudar a mudar o país; música acústica e eletrónica, música com guitarras elétricas, com vozes que cantam em inglês e português, música de homens e mulheres que merecem pelo menos que relembremos que existiram. De vez em quando, pelo menos, sempre que nos cansamos daquelas listas que só nos dão aquilo que já conhecemos.

1. Clube Naval – Salva Vidas (1983)

Criação da Fundação Atlântica de Pedro Ayres Magalhães e Miguel Esteves Cardoso, os Clube Naval lançaram apenas um single produzido pelo já desparecido Ricardo Camacho cujo Lado A, “Professor Xavier”, ainda ganhou à época alguma exposição de rádio. Mas no Lado B escondeu-se para sempre uma pequena delícia pop, “Salva Vidas”, que parece viver do mesmo padrão de caixa de ritmos que sustentaria o êxito dos Heróis do Mar do mesmo ano, “Paixão”.

2. Kutchi-Kutchi – Não Morra de Ciúme

Celso de Carvalho nos arranjos e Nuno Rodrigues na produção, ou seja, parte importante da Banda do Casaco. E no microfone duas adolescentes que fariam alguma carreira posterior na música, Maria León, que haveria de integrar os Ravel, e Nucha, essa mesma. E uma peça que alguns DJs do presente não dispensam nos seus sets quando querem piscar um olho ao passado e alimentar aquela indagação á beira da cabine: “quem são?”

3. José Afonso – Agora (1985)

A voz de Luís Represas dos Trovante a cumprir a que a de José Afonso já não podia, tomado que já estava pela doença em 1985. Som de José Fortes numa produção repartida por José Mário Branco e Júlio Pereira, com cadência africana presciente e um toque de electrónica de pendor modernista. Continua a fazer perfeito sentido, mas abre aquele que poderá ser o menos celebrado dos discos de Zeca.

4. Pilar – Um Amor assim (1989)

Em 1989, Pilar lançou um registo homónimo produzido por Wayne Shorter (sim, esse) e com créditos de gente com pergaminhos, de Mário Barreiros, Mário Laginha e Nuno Canavarro, a Flak, que aqui toca guitarra e programa a caixa de ritmos, e a Miguel Esteves Cardoso, autor da letra deste tema que ainda furou alguma coisa na rádio, mas não o suficiente sequer para garantir que o disco alguma vez tenha merecido reedição.

5. José Mário Branco – Diminuendos (1990)

Há 30 anos, José Mário Branco editava Correspondências, o sucessor do álbum A Noite, que já datava de 1985. Aí endereçou “cartas” a gente como José Afonso, Chico Buarque ou Hannah Arendt e esta que aqui se destaca, dirigida ao “Sr. Silva”. O arranjo é do enorme António José Martins, que também assina a produção do disco, senhor que integraria os Gaiteiros de Lisboa, entre outros importantes projectos. E o tema tem “feras” como Yuri Daniel, Mário Laginha ou Paulo Curado, e um subtexto electrónico de absoluta modernidade que coloca a peça nos mesmos terrenos então percorridos por gente como David Sylvian, por exemplo.

6. LX-90 – 1 revolução Por Minuto (1991)

Em 1991, os Heróis do Mar tiveram o primeiro filho e chamaram-lhe LX 90: Rui Pregal da Cunha e Paulo Pedro Gonçalves alinhavam Lisboa com a Manchester mais dançante, recrutavam Tó Pereira, aka DJ Vibe, e dançavam lado a lado com os Happy Mondays enquanto prometiam uma revolução por minuto. A coisa não resultou, mas à época, os LX )0 foram dos primeiros a ousar olhar para a frente.

7. REF – Alto Risco (1992)

700 views no Youtube, zero comentários, nada no Google... Mas em 1992, uns anos antes dos Da Weasel, estes REF já cruzavam guitarras e assomos de rap. Registos discográficos desconhecidos... Estes podem bem ter caído nas rachas que o tempo abre na memória...

8. Cosmic City Blues – The European Sun (1992)

Dos Cosmic City Blues saiu gente para os Sequoia ou Zen, outros valorosos projectos de exploração das possibilidades eléctricas das guitarras, mas aqui, nesta assumida vénia aos Velvet Underground, lançada em 1992, o grupo olhava também para o futuro, sacudindo os anos 80 para trás das costas e anunciando outras nuances que o rock não tardaria a abraçar.

9. Pop Dell-Arte – 808 Loop (1993)

Em 1993, um ano antes da entrada em cena oficial do hip hop tuga com Rapública, os Pop Dell’Arte já olhavam para o futuro com este “808 Loop” que referenciava a caixa de ritmos mais adorada de sempre e que incluía aquele que pode bem ser o primeiro exemplo nacional de sempre da arte de arranhar discos com agulhas.

10. Blackout – Paixão (1995)

1995 foi um ano generoso em termos musicais e os Blackout de Kika Santos contribuíram para isso com um álbum de estreia que recentemente até mereceu reedição em vinil que talvez tenha sido demasiado discreta para o que este grupo em tempos significou. Desse álbum saiu o single de algum sucesso “Sinfonia de Amor” e uma série de remisturas que o relançamento recente teve o mérito de reunir, mas a fechar o lado A estava esta discreta canção que bem já merecia ter sido redescoberta.

11. Turbo Junkie – The Last of the Lonesome Cowboys (1995)

A família Praça, de Paulo Praça, nome mais tarde ligado a Plaza, Amália Hoje ou ao Comité Caviar de Pedro Abrunhosa, entre outros projectos, estreou-se em 1995 com um álbum na editora nortenha Numérica onde se encontrava este “Last of the Lonesome Cowboys”, pedaço de rock cinemático com um pé no grunge e outro... bem o outro também.

12. Ithaka – Escape from the City of Angels (1995)

Em 1995, parte da equipa que se tornaria mais visível com os Cool Hipnoise ajudou a transformar em realidade o primeiro trabalho do projecto Ithaka, criação de Pedro Passos e do rapper e surfista americano Darin Pappas. Neste tema, contavam até com a colaboração de Marta Dias, cantora que haveria, por exemplo, de colaborar com o mestre guitarrista de fado António Chainho.

13. Né Ladeiras – Lembra-me um Sonho Lindo (1997)

O rio que Fausto em tempos percorreu parecia aqui situar-se algures entre o nosso norte e a Galiza a julgar pela gaita de foles que abre a leitura de Né Ladeiras para o clássico de Por este Rio Acima, aqui transformado numa peça de tonalidades jazz-folk, servida por uma das melhores vozes de sempre da música nacional que ainda recentemente gerou falatório nas redes sociais por ter tido a coragem de pedir um emprego. Né já não canta, mas isso não significa que não deva ser lembrada.

14. Supernova – Scan My Mind (1997)

Em 1997, depois de uma estreia um par de anos antes na Música Alternativa, os Supernova chegaram à Nortesul, catálogo progressivo da Valentim de Carvalho que à época procurava caminhos alternativos para a nossa música.... bem... moderna. Produção de Rafael Toral, vídeo de José Pinheiro e uma frescura sónica que procurava contactos com os subterrâneos que na América já incendiavam as tabelas de vendas. E depois? Bem, depois nada, o grupo editou mais um EP e cada um dos músicos seguiu o seu caminho.

15. Pinhead Society – Hi Mr Sparks (1998)

O futuro reservou a cada um dos membros dos Pinhead Society lugares muito diferentes, mas em 1998 eles ocupavam um espaço “alternativo” que lhes valia aplausos da crítica mais engajada e um assinalável culto que se manifestava sobretudo nos seus concertos. Depois de uma estreia na mítica Bee Keeper, em 1995, lançaram o seu segundo e último álbum na Candy Factory, trabalho em que se abrigava esta “Hi Mr. Sparks” que merece ser reescutada.

16. Raindogs – Toward the Light (1999)

Os Raindogs integravam Carlos Gonçalves Pereira que vinha dos Casino Twist e Corpo Diplomático, Pedro Temporão, ligado aos Cello ou Corsage, e ainda Roland Popp e Matt Howden, afirmando-se como projeto internacional. O primeiro álbum, From Today, chegou em 1999, lançado pela Candy Factory, selo da Música Alternativa, à época notória força indie nacional. E o grupo editaria 5 álbuns até 2004, o que é facto digno de nota.

17. Um Zero Amarelo – Canção de Amigo (2000)

Mais um álbum da NorteSul, este de uma banda com ramificações fortes: tinha gente dos Mão Morta (Carlos Fortes, António Rafael), Rua do Gin ((António Cunha) e dos Pop Dell’Arte (José Pedro Moura, que também tinha militado no grupo bracarense de Luxúria Canibal), e até gente que haveria de fundar a Meifumado (Duarte Araújo). Editaram um único álbum à entrada do novo milénio e depois... desvaneceram-se.

18. Cool Hipnoise – Sem Plano (2000)

A meio do alinhamento do álbum de meio da carreira dos Cool Hipnoise, Música Exótica, abrigava-se a resposta nacional ao “History Repeating” que um par de anos antes tinha unido os Propellerheads à diva Shirley Bassey. Mas, ao contrário do mega-êxito dos britânicos, “Sem Plano”, que ousou meter Simone de Oliveira a cantar em cima de um pedaço iluminado de música para pista, não registou o alcance que talvez merecesse. Se calhar ainda vai a tempo... o que são 20 anos, afinal de contas?

19. Mecanosphere – M’Bora Piscina (2003)

“Vamos prá piscina, está um dia de sol muito bonito”, vocifera Adolfo Luxúria Canibal, antes da batida industrial levar isto para bem longe dos seus habituais territórios nos Mão Morta. O projecto experimental haveria de lançar mais alguns trabalhos, o mais recente dos quais data já de 2015, mas esta foi a sua primeira e disruptiva aventura.

20. 1-Uik Project – Strategies of Universal (2004)

Antes dos Buraka Som Sistema, houve este pioneiro 1-Uik Project, projecto de João Barbosa, aka Branko, e Kalaf. Ambos haveriam de conhecer os píncaros do sucesso global com o seu projecto posterior, mas em 2004 este disco, premonitoriamente titulado Strategies of Survival, marcou-lhes o começo de um percurso que continua a gerar frutos até aos dias de hoje.