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25 de Abril, 25 versões de 'Grândola, Vila Morena'. De Espanha à Finlândia, do punk ao jazz

Quando se cumpre o 46º aniversário da Revolução dos Cravos, reunimos 25 leituras marcantes do histórico tema de José Afonso, uma das senhas do 25 de Abril de 1974. Vozes e interpretações tão distintas como as de Amália Rodrigues, Nara Leão, Charlie Haden, Pascal Comelade ou Garotos Podres

José Afonso criou 'Grândola Vila Morena' numa viagem entre Grândola e Lisboa dez anos antes da revolução de Abril (a história pode ser lida aqui), mas a viagem que agora sugerimos parte da versão original de José Afonso, lançada em 1973 pela Orfeu, e só termina, 25 canções mais tarde, noutra versão que Zeca, com a ajuda dos seus pares, gravou no histórico concerto do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, que seria documentado para a posteridade no álbum duplo ao vivo lançado pela Diapasão em 1983.

Pelo meio há gente grande do fado – como Amália Rodrigues ou Maria da Fé e até Camané, que surge ao lado de Rodrigo Leão nas comemorações dos 40 anos da Revolução... –, muita malta do jazz – de Zé Eduardo a Carlos Martins, de Charlie Haden (é verdade...) a Bernardo Sassetti e Mário Laginha –, da música popular – recordamos uma versão de Roberto Leal –, da bossa nova – Nara Leão também cantou Grândola – e, pois claro, do rock: de Portugal, mas também de #spanha ou do Brasil.

“Grândola Vila Morena” teve um enorme impacto mundial e foi gravada por gente diferente de Espanha ou do Chile, do Brasil, da Alemanha, de França ou até da Finlândia, sinal de um espírito andarilho cuja obra não se cansou de calcorrear as estradas da liberdade.

1. José Afonso (1973)

A primeira versão da canção remonta a 1964, mas importa saber que este single editado pela Orfeu de Arnaldo Trindade em 1973 ganharia a imortalidade ao ser usado como senha na Revolução dos Cravos, na madrugada de Abril de 1974.

2. Amália Rodrigues (1974)

Amália Rodrigues conheceu José Afonso e admirava profundamente o seu espírito libertário daí que esta versão, gravada logo em 1974 e com dimensão orquestral, tenha feito pleno sentido.

3. Maria da Fé (1974)

Admirável versão em que a fadista Maria da Fé interpreta o tema, juntamente com um coro, apenas com uma simples linha de percussão por acompanhamento.

4. Nara Leão (1974)

Versão de 1974 da mítica cantora brasileira, originalmente incluída no single A Senha do Novo Portugal que, no lado B, incluía ainda versão para “Maio, Maduro Maio”.

5. Roberto Leal (1974)

Logo em 1974, como parte do álbum Lisboa Antiga, Roberto Leal gravou uma solene versão do eterno tema de Zeca.

6. Aparcoa (1975)

Grupo de folk chileno, os Aparcoa gravaram em 1975 esta versão para um álbum editado na Amiga, o selo estatal da Alemanha de Leste.

7. Franz Josef Degenhardt (1975)

Poeta e cantor folk, além de activista político, o alemão Franz Josef Degenhardt gravou “Grândola” logo em 1975 no álbum Mit Aufrechtem Gang e a sua versão, em alemão, começa com uma explicação da importância histórica da canção.

8. Charlie Haden, Carla Bley (1983)

Extraordinária versão, incluída no álbum The Ballad of the Fallen, editado em 1983 na prestigiada ECM. Ao lado do contrabaixista e da pianista estão gigantes do jazz como Don Cherry ou Paul Motian.

9. 365 (1987)

Versão de 1987 da banda anteriormente conhecida como Lixomania, pioneiros da cena punk no Brasil que em meados da década de 80 assumiram o nome 365. Tema incluído na histórica compilação Não São Paulo 2.

10. Orkest de Volharding (1993)

Gravação de 1993, ao vivo em Setúbal, de um tema que esta orquestra holandesa gravou pela primeira vez em 1980 num álbum homónimo.

11. Filhos da Madrugada (1994)

Em 1994, a compilação Filhos da Madrugada reuniu uma série de artistas portugueses – de Madredeus e GNR a Censurados, Mão Morta ou Madredeus – em torno da música de José Afonso. Esta foi a versão colectiva que assinaram para “Grândola”.

12. Agit-Prop (1995)

E uma versão por um grupo vocal comunista finlandês?

13. Betagarri (1997)

Banda basca de punk, ska e pachanga, que chegou a tocar na Festa do Avante e que em 1997 assinou esta curiosa versão do clássico revolucionário português.

14. Carlos Martins (1999)

Nos 25 anos da revolução dos cravos, o saxofonista Carlos Martins, um dos maiores agitadores da cena jazz nacional, encerrou o seu segundo álbum, Sempre, com esta versão em jeito de balada.

15. Pascal Comelade & Bel Canto Orchestra (2000)

De um álbum que reúne música gravada ao vivo em Barcelona e Lisboa, este tema foi registado em Junho de 1999 num concerto no Centro Cultural de Belém.

16. Zé Eduardo Unit (2004)

O contrabaixista Zé Eduardo a liderar um trio com o baterista Bruno Pedroso e o saxofonista Jesus Santandreu numa versão de “Grândola” incluída num álbum, A Jazzar no Zeca, editado pela Clean Feed.

17. Autoramas (2009)

Versão dos rockeiros de garagem brasileiros gravada para o ep de versões que em 2009 registaram para a Optimus Discos.

18. Reincidentes (2013)

Mais uma versão punk vinda de Espanha, esta de uma banda da Galiza, região que tão fortes ligações tem a esta canção e a José Afonso.

19. Rodrigo Leão & Orquestra Sinfonietta de Lisboa e Camané (2014)

O compositor incluiu uma versão de “Grândola” no álbum O Espírito de um País, gravação do espectáculo ao vivo na Assembleia da república com que se assinalou o 40º aniversário da Revolução.

20. Bernardo Sassetti & Mário Laginha (2014)

Do álbum Abril a Quatro Mãos – Grândolas que os dois pianistas assinaram para a Companhia Nacional de Música.

21. Os Ganhões de Castro Verde (2014)

O grupo que é um dos pilares do cante alentejano que agora é património da humanidade a oferecer ao projecto A Música Portuguesa a Gostar dela Própria, de Tiago Pereira, uma versão no tom que originalmente inspirou José Afonso.

22. Iris (2015)

Versão com laivos metaleiros da banda algarvia que em 1995 se estreou em disco com Vão Dar Banho ao Cão.

23. UHF (2017)

Com A Herança do Andarilho os UHF sagraram aquilo que António Manuel Ribeiro sempre reclamou: uma influência marcante do espírito de José Afonso na sua singular obra eléctrica.

24. Garotos Podres (2018)

Versão com toque ska da histórica banda punk de São Paulo, Brasileiro.

25. Asteróides Trio (2019)

Mais uma versão com origem na cena punk brasileira, esta assinada por um trio “psychobilly” de Arujá, São Paulo.

+1: José Afonso – Grândola Vila Morena (Ao Vivo) (1983)

E para fechar esta lista, em jeito de bónus, recua-se a 1983, ao histórico concerto gravado no Coliseu dos Recreios que consagrou para sempre o lugar cimeiro de José Afonso na música portuguesa.