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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Listas

20 grandes álbuns da história da música que foram feitos em isolamento

Gravados em casa, em quartos e nas salas, em pequenos anexos, garagens, sótãos e caves, até em quartos de hotel. Num momento em que o mundo se isolou nos casulos domésticos, olhamos para 20 álbuns que não precisaram de estúdios famosos para ascenderem à galeria de clássicos. Quando o recolhimento é a inspiração: de Bruce Springsteen aos White Stripes, de Beck a Bon Iver, de Legendary Tigerman a Moullinex

Em tempos de recolhimento, as redes sociais têm-se enchido de relatos de artistas que garantem estar a aproveitar as suas quarentenas para compor e até para gravar novos discos. Hélio Morais, dos Linda Martini, por exemplo, foi um dos artistas que adiantou estar preparado para esta necessária reclusão: “Já montei uma série de coisas em casa, estou preparado para gravar o que a inspiração me ditar”, confessou-nos. A tecnologia hoje disponível facilita a vida e é de facto relativamente normal nestes tempos presentes transformar qualquer sala de estar num estúdio capaz de gravar uma banda inteira, adaptar uma casa de banho para captar vozes ou obter um bom som de bateria numa garagem ou num hall de entrada.

Mas nem sempre foi assim.

Ao longo da história houve grandes discos gravados em casa, em quartos e nas salas, em pequenos anexos, garagens, sótãos e caves, até em quartos de hotel. Tentaremos deixar de fora discos concebidos em estúdios convencionais que tenham a particularidade de terem sido criados em residências particulares – e sabe-se que muitos artistas, de Prince a Rui Veloso, usaram os proveitos das suas bem-sucedidas carreiras para construir os seus próprios estúdios. Não é isso que se quer nesta lista, antes exemplos de discos que foram gravados nas proximidades de mesas de jantar, mesmo ao lado de camas, com cabos a passarem pelo corredor e microfones pendurados em candeeiros, discos gravados em sítios que não foram originalmente pensados para serem estúdios.

Temos a certeza que no momento em que estiver a ler isto estará muita gente a gravar guitarras sentada no sofá da sala, muitos artistas a gravar canções sobre a reclusão, a emergência e a esperança que nos vai levar a ultrapassar tudo isto dentro de armários e em dispensas, em marquises ou em garagens, músicos que pousaram teclados no balcão da kitchenette, na tábua de passar a roupa ou na mesa de café. E isso, podemos garantir, não é nada que já não tenha acontecido antes...

Robert Johnson – King of the Delta Blues Singers (1937)

A música que haveria de ser descoberta durante o “revival” folk dos anos 60 e editada em dois volumes como King of the Delta Blues Singers (e, mais tarde, reunida na edição em duplo CD The Complete Recordings) foi originalmente lançada pela Vocalion numa série de “discos de grafonola” de 10 polegadas em 1937 (hoje altamente valorizadas peças de colecção). À época, não existiam estúdios convencionais, por isso quando Robert Johnson contactou o lojista H.C. Spier, de Jackson, no Mississippi e lhe manifestou interesse em fazer discos iguais aos que ele tinha para venda no seu estabelecimento, o comerciante meteu-o em contacto com um vendedor de discos que o apresentaria a Don Law, o homem responsável pelas duas únicas sessões de gravação que fixaram para a posteridade a obra do bluesman. A primeira das sessões aconteceu em finais de Novembro de 1936, em San Antonio, Texas, num quarto do Gunter Hotel, com Robert Johnson a cantar e a tocar voltado para um canto, para que o único microfone montado captasse o seu som o melhor possível. O resto, claro, é história. E um pouco de folclore.

Amália Rodrigues e Vinicius de Moraes – Amália/Vinicius (1970)

Em 19 de Dezembro de 1968, o histórico técnico Hugo Ribeiro montou na casa de Amália Rodrigues, em São Bento, Lisboa, os microfones necessários para documentar o histórico encontro do poeta e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes com a nossa maior fadista. Para a ocasião, Amália convidou uma série de outros amigos, também poetas, como Natália Correia, David Mourão Ferreira ou José Carlos Ary dos Santos. Com Pedro Leal à viola e Fontes Rocha à guitarra, os poetas foram declamando o que Hugo Ribeiro gravou e que mais tarde apareceria no álbum que a Valentim de Carvalho lançou em 1970. As partes de Amália, no entanto, seriam depois regravadas nos estúdios de Paço de Arcos.

The Rolling Stones – Exile on Main Street (1972)

Problemas com o management e com o Ministério das Finanças britânico levaram os Rolling Stones a exilarem-se temporariamente em França no arranque dos anos 70. A cave de uma moradia em Nellcôte, perto de Nice, onde Keith Richards se instalou, foi transformada num estúdio com a ajuda do equipamento do famoso “mobile Studio” dos Stones. E foi aí que a maior parte das sessões decorreu, no meio de um caótico turbilhão de drogas, visitantes como Gram Parsons, William S. Burroughs ou John Lennon e músicos de sessão que foram compensando o facto de a banda não conseguir estar toda junta ao mesmo tempo naquele espaço. Além de Bill Wyman, Mick Taylor, Keith Richards e, pontualmente, Charlie Watts, músicos como Bill Plummer, Nicky Hopkins, Bobby Keys e Jimmy Miller também contribuíram para o material que foi sendo gravado por Andy Johns, em sessões que se prolongavam madrugada dentro e que eram alimentadas a doses generosas de heroína.

Deep Purple – Machine Head (1972)

O mesmo equipamento que serviu para captar Exile on Main Street dos Stones e que estava montado num camião fez-se à estrada depois de solicitado pelos Deep Purple que pretendiam gravar um álbum em finais de 1971 no Casino de Montreaux, na Suíça. Depois de um concerto de Frank Zappa a 4 de Dezembro, no entanto, houve um fogo no casino (que haveria de inspirar a banda, que viu o fumo da outra margem do lago Léman, do local em que estavam instalados, a escrever a famosa “Smoke on the Water”) que obrigou os Deep Purple a alterarem planos e a instalarem-se num hotel desocupado nas proximidades, o Grand Hotel. Com cabos a seguirem do camião por varandas e corredores, o grupo gravou ao fundo de um longo corredor que saía do lobby do hotel vazio. Martin Birch e Jeremy Bee foram os engenheiros de serviço, mas a produção ficou a cargo dos próprios Purple que, à época, incluíam os Ians Gillan e Paice, Jon Lord, Ritchie Blackmore e Roger Glover.

Bob Dylan and The Band – The Basement Tapes (1975)

Depois do Famoso acidente de moto que obrigou à interrupção de uma digressão e que alimentou uma fase de intensa criatividade, Bob Dylan pegou nos Hawks de Rick Danko e Robert Robertson e na cave de uma grande casa cor de rosa, a famosa Big Pink, perto de Woodstock, começaram uma série de sessões informais que ficariam para a história. Com duas mesas de mistura estéreo, um gravador emprestado pelo manager Albert Grossman e um conjunto de microfones cedido pelo trio folk Peter, Paul & Mary, os membros da The Band e o bardo criaram uma obra que resistiu valorosamente ao passar do tempo. Sobre estas gravações, Dylan disse a Jann Wenner da Rolling Stone: “Aquela é mesmo a melhor maneira de gravar – num ambiente pacífico e relaxado, na cave de alguém. Com as janelas abertas e um cão deitado no chão”.

Donnie & Joe Emerson – Dreamin’ Wild (1979)

“Bedroom funk”, escreveu a Light in The Attic que em 2012 reeditou este obscuro álbum de 1979 de dois irmãos naturais de Spokane, uma zona rural do estado de Washington. Com delírios de notoriedade pop a animar-lhes a inspiração, os dois irmãos conseguiram gravar graças a um pai agricultor que lhes financiou o equipamento de que necessitaram para fazerem um disco em casa. O charme lo-fi do disco agradou a Ariel Pink que regravou “Baby”, ajudando este disco a alcançar estatuto de culto. Dreamin’ Wild, o álbum que tentaram vender a colegas na escola, nunca alcançou, pois claro, a notoriedade com que sonhavam.

Bruce Springsteen – Nebraska (1982)

Neste caso, não se tentou disfarçar nada: “Recorded at Bruce Springsteen's residence, Colts Neck, New Jersey on a Teac Tascam Series 144 4-track cassette recorder”. Leram bem, gravado num Tascam de 4 pistas em cassete! Depois de The River, que foi número 1, Bruce recolheu-se e no privado conforto da sua casa e gravou o íntimo e melancólico material de Nebraska, com voz mergulhada em solene reverb. O som da cassete original era tão baixo que foi complicado masterizar o disco: “Eu nem sabia que o disco iria nascer daquelas demos”, disse mais tarde Springsteen, “andei com aquela cassete, sem caixa nem nada, no bolso durante semanas...”

Daniel Johnston – Yip/Jump Music (1983)

Gravado na garagem do irmão, no Texas, segundo reza a lenda usando um pequeno órgão e uma guitarra que já foi descrita como tendo “o som de um elástico esticado num pau...”, Yip/Jump Music foi em parte gravado através de um “boombox”, “tijolo” ou “cantante” na gíria portuguesa... este é o álbum de “True Love Will Find You In The End”, canção que inspirou o título do álbum a solo do produtor e baterista português Fred. Ah... e era o disco número 35 na famosa lista de álbuns favoritos de Kurt Cobain.

Beastie Boys – Paul’s Boutique (1989)

Foi no apartamento de Matt Dike, DJ e dono de um clube em Hollywood, que tinha Mario Caldato, Jr. como amigo, que boa parte da obra-prima Paul’s Boutique, um dos primeiros discos da história a ser quase integralmente feito com samples, foi gravado. Com um sampler SP 12 da EMU, um gravador Tascam de 8 pistas, alguns microfones e efeitos de Caldato, a sala de estar de Matt Dike foi transformada num caótico estúdio, com boa parte do espaço tomada por uma colecção de discos de onde vieram boa parte dos samples que depois seriam tratados pela dupla de Mike Simpson e John King, os Dust Brothers. Foi este quarteto – Caldato, Dike, King e Simpson – que ajudou o trio nova-iorquino a sacudir a aura punk de Licensed to Ill e a impor uma nova visão para a carreira dos rappers que então se juntavam a uma nova editora, a Capitol.

Red Hot Chili Peppers – Blood Sugar Sex Magik (1991)

O clássico de “Breaking The Girl”, “Give it Away” ou “Suck My Kiss” e, pois claro, “Under The Bridge”, marcou, finalmente, o encontro dos Red Hot Chili Peppers com Rick Rubin, produtor com que a banda já tinha querido trabalhar antes, mas que declinou até que os problemas com drogas dos músicos fossem resolvidos. Para o álbum que colocaria os Chili Peppers no topo do mundo, Rubin sugeriu que se alugasse uma mansão em tempos pertença do mágico Harry Houdini, onde foi montado o equipamento para registar as sessões. O grupo, à excepção de Chad Smith, viveu durante esse período na mansão. O baterista, no entanto, e de acordo com relatos de Anthony Kiedis, recusava-se a dormir num lugar que ele acreditava ser habitado por fantasmas.

Xutos e Pontapés – Dizer Não de Vez (1992)

Numa espécie de toque a reunir para salvar a banda depois de um arranque de década de 90 conturbado, os Xutos recolheram-se numa casa em Sintra, longe de zunzuns e interferências externas, e com o técnico Fernando Rascão e o equipamento do estúdio móvel da Valentim de Carvalho registaram suficiente material para construir o alinhamento de Dizer Não de Vez e do álbum seguinte, Direito ao Deserto. O plano resultou, o grupo resistiu às convulsões e a partir daí encarreirou num caminho ascendente que os empurrou até ao topo.

Guided By Voices – Bee Thousand (1994)

Procurando soar aos bootlegs criados pelos Beatles, com um som “lamacento” e longe dos padrões de fidelidade que então caracterizavam a música que se escutava nas estações de rádio Top 40, os Guided By Voices de Robert Pollard pegaram em gravadores de 4 pistas de cassetes e em quartos, garagens e caves dos vários membros da banda gravaram o que lhes apeteceu, ignorando o livro de regras universais do áudio. O álbum foi editado com esse material, que se orgulhava de pequenos defeitos (guitarras que desapareciam repentinamente, ruídos, má captação, etc) como marcas de uma distinta identidade que fez escola.

Nine Inch Nails – The Downward Spiral (1994)

Em busca do lado macabro da memória cultural americana, em 1992 Trent Reznor mudou-se para o número 10050 de Cielo Drive, em Benedict Canyon, Los Angeles, a casa onde Sharon Tate e uma série de outras pessoas foram assassinadas por membros da Manson Family. Inspirado por essa trágica história, Rezonor chamou ao estúdio montado nessa residência Le Pig. Combinando tecnologia analógica (o músico comprou dois gravadores Studer de fita) e digital (boa parte do material foi gravado para um computador MacIntosh) e recorrendo a músicos de sessão como o guitarrista Adrian Belew (que tocou com os King Crimson ou David Bowie), Reznor gravou aí não só The Downward Spiral, mas também o álbum de estreia de Marilyn Manson.

Beck – Odelay (1996)

Conhecendo o trabalho que a dupla The Dust Brothers tinha realizado no segundo álbum dos Beastie Boys, e depois de frustrada uma tentativa inicial de arranque das gravações para o que viria a ser Odelay, Beck acabou por decidir gravar na casa minúscula de Mike Simpson e John King. O Pro Tools dos produtores corria num computador tão primitivo que demorava horas a carregar as faixas já gravadas, tempo esse que Beck usava para procurar nos discos de vinil que ocupavam cada recanto da casa os samples que acabariam como base das suas faixas.

The White Stripes – De Stilj (2000)

Gravado na sala de estar da casa que Jack White comprou aos seus próprios pais quando eles saíram de Detroit, o álbum de “You’re Pretty Good Looking” e “Hello Operator” foi gravado em 8 pistas, mas, mais tarde, Jack White confessou não ter sido a melhor das experiências: “Foi erro termos gravado o segundo álbum em casa, na sala: não é fácil concentrarmo-nos quando estamos em casa a trabalhar. É muito melhor quando estamos longe de longe e não temos outra hipótese que não seja deitarmos as mãos ao trabalho”.

Bon Iver – For Emma, Forever Ago (2007)

A história já é por demais conhecida: o álbum de estreia de Justin Vernom como Bom Iver foi gravado na cabana de caça do seu pai, numa remota zona florestal do Wisconsin. Quando não estava a caçar viados ou a partir lenha, Justin começou a escrever canções que gravaria com a ajuda de um MacIntosh, vários microfones e, claro, do seu conjunto de instrumentos. Mais tarde, quando lhe foi pedido para descrever este período, o artista explicou que foi uma mistura entre “o Into The Wild, as Basement Tapes, o Walden e o Unabomber”, misturando portanto cinema, música, literatura e um pouco da história americana contemporânea.

Foo Fighters – Wasting Light (2011)

Numa tentative de escaper à ditadura digital, Dave Grohl tomou a decisão de fugir dos estúdios convencionais e montar gravadores e demais equipamento analógico na sua garagem, em Encino, na Califórnia. Com o lendário Butch Vig a tomar conta da mesa de mistura e dos microfones, o espaço foi adaptado, com carpetes e colchões e até uma pequena tenda no quintal para um control room improvisado. A comunicação entre a tenda e a garagem era feita através de duas câmaras. Sim, porque “gravar em casa” a este nível já não era impeditivo de uma certa sofisticação e os foo Fighters dedicaram mesmo uma semana a cada tema, para que tudo ficasse o mais perfeito possível.

Moulinex – Elsewhere (2015)

Para o seu Segundo álbum, Luís Clara Gomes decidiu sair de Lisboa, ir para uma casa de família na Granja de Penedono, “sem telefone nem internet” e com o cão, Bowie, que à época contava só alguns meses de vida, como única companhia. “De vez em quando o cão ladrava quando eu estava a gravar. Decidi assumir isso e até aparece na “Anxiety””, explica o músico à Blitz. O revisitar do tema e da sua letra até leva Luís a perceber o quanto essa música se adequa ao presente contexto: “anxiety — raining down on me close your eyes don’t worry child anxiety — twenty first century we’ll build ourselves a place to hide”.

Legendary Tigerman

Legendary Tigerman

Ana Viotti

Legendary Tigerman, Rita Lino – How To Become Nothing (2019)

A casa de Paulo Furtado, em Lisboa, é um sítio para viver, para receber amigos, mas também para gravar, com a sala a ter que servir para tudo o que as salas servem, mas também para o músico ter as suas guitarras e efeitos analógicos, os seus amplificadores, microfones e sintetizadores modulares. Foi aí que criou How to become Nothing, banda sonora para as fotografias de Rita Lino em que Tigerman assume vozes e guitarra, mais drum machines e sintetizadores, numa criação solitária. Mas pela sala de Paulo Furtado têm passado ultimamente muitos músicos, como “Cabrita, a Delila dos Last Internationale ou a teresa de Calcutá”, explica, levantando um pouco o véu sobre o que aí pode vir...

O estúdio caseiro onde Gabriel Ferrandini gravou "Volúpias"

O estúdio caseiro onde Gabriel Ferrandini gravou "Volúpias"

Gabriel Ferrandini – Volúpias (2019)

O fantástico álbum que marcou a estreia em nome próprio do muito requisitado baterista de jazz Gabriel Ferrandini foi gravado por Cristiano Nunes numa casa remota de Fonte Santa, no Alandroal, em fevereiro de 2017. Aí, o baterista e ainda o saxofonista Pedro Sousa e o contrabaixista Hernâni Faustino criaram, ao vivo, e perante microfones bem posicionados, um disco que parte de orientações de composição de Ferrandini mas que tem espaço para a inspiração que o momento, e certamente a localização, ditaram.