Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Listas

Nick Cave

Getty Images

Ninguém ama as mulheres como Nick Cave. 24 canções sobre o fascínio feminino na música de um génio

Alice, Lucy, Mary, Christina, Janey, Elisa, Loretta... São tantas as mulheres que habitam as canções de Nick Cave e tão grande o fascínio do músico e poeta pelo universo feminino. A poucos meses do regresso a Portugal do australiano e dos seus Bad Seeds, apresentamos uma viagem de 24 paragens por um cancioneiro muito relevante na obra de Nick Cave. Elas, sempre

Nick Cave é um génio. Ninguém lhe disputa esse título que se sustenta numa longa discografia que se estende ao longo de várias décadas e que procurou responder às grandes questões da vida que há milénios inquietam filósofos, poetas, cantores e os comuns mortais que se agarram às suas palavras: a morte, o amor, a angústia, a paixão, o arrependimento, os barcos e os abismos, os homens e as mulheres. E são várias as mulheres que habitam a história pessoal de Nick Cave – de Anita Lane a Viviane Carneiro, de Polly Jean Harvey a Susie Bick, a sua atual companheira. Mas há outras inspirações femininas na vida de Cave, as que povoam e assombram as canções que gravou com os Bad Seeds ou até com os Grinderman, tantas delas com nomes: Alice ou Jane, Christina ou Lucy...

Na plataforma que criou para dialogar directamente com os seus fãs, The Red Hand Files – que tem usado, tantas vezes de forma desarmante e honesta, para responder a perguntas como “O que sente em relação ao Natal?”, “Como é que eu deixo de ter medo do fim do mundo?” ou “Porque escreve?” –, Nick abordou directamente o papel das mulheres no seu universo poético. E foi, uma vez mais, direto e transparente: “de vez em quando, as minhas canções atraem o desdém de certas pessoas que acreditam que a forma como represento mulheres nas minhas canções é redutora e objetificante e de alguma forma insultuosa para a noção de feminilidade”. “As mulheres”, admite o cantor, “são de facto uma obsessão singular”. Essa obsessão tem tradução direta numa parte do seu vasto cancioneiro, não nas canções em que dialoga com mulheres, e que são muitas, partindo do seu “eu”, mas em canções onde coloca o peso poético no “ela”, descrevendo mulheres muito diferentes que, certamente, hão-de ter-se cruzado consigo na vida real. Ou nos seus sonhos e devaneios.

“A verdade”, confessa Cave, “é que eu possuo um muito reduzido entendimento das mulheres; elas permanecem mistérios profundos que contêm multitudes – e é exatamente por isso que eu gosto de escrever sobre elas. É a sua energia feroz e a sua aparentemente ilimitada capacidade para o maravilhamento que, para mim, resulta na sua vital atração, tanto na página como fora dela. Vinte anos depois eu ainda tento definir Susie, a minha mulher, em canção, mas é uma batalha que não consigo vencer. Acabei por perceber que há uma energia selvagem e mercurial nela que as minhas palavras nunca conterão e que essa energia brilhante está ligada ao seu próprio singular e inquieto fascínio com o mundo. Tem pouco que ver comigo”.

O líder dos Bad Seeds aborda ainda a questão das “oceânicas mudanças culturais”, referindo-se, certamente, à consciência colectiva pós #metoo que tomou conta da agenda moral e política corrente: “sinto que essas mudanças representam o perigo de desgastarmos as aguçadas pontas de personalidade e de as triturarmos até se tornarem monótonas políticas identitárias – em que algumas mulheres trocam a sua inerente capacidade de não serem domadas e sentido de maravilhamento por um dimensão única de protesto contra um conceito uniforme de masculinidade que eu não tenho a certeza de reconhecer”.

“O próprio tempo”, conclui Cave, “serve como uma espécie de corretor e há letras que escrevi lá atrás que eu simplesmente não escreveria agora tal como o meu eu mais jovem provavelmente olharia para o que eu escrevo agora revirando os seus olhos loucos e raiados de sangue em escárnio”. “Espero”, diz ainda, “que a mudança generalizada nas minhas letras seja na direção de uma compaixão que é de natureza humana e não tribal”.

Propomos, aqui mesmo, uma viagem especial pelo cancioneiro de Nick Cave focado nas mulheres com personalidades tão intensas como o mercúrio, livres e selvagens, misteriosas e capazes de se maravilharem com o mundo. Algumas, já o referimos, têm nomes próprios, outras são apresentadas com características físicas concretas – “cabelos negros”, por exemplo – ou origens geográficas específicas – há uma que vem de Knoxville, que é uma terra no Tennessee, esse estado do sul da América de onde veio Elvis e Johnny Cash, Roy Orbison e tanto do country que tão profundamente inspirou Cave.

From Her to Eternity (1984)

Tema título do album de estreia de Nick Cave & The Bad Seeds que nos revela a história de uma rapariga que vive no apartamento 29 que chora tanto que as lágrimas se escapam pelo soalho, caindo sobre o narrador, que as bebe: “And I hear her crying too/ Hot-tears come splashin' on down / Leaking through the cracks / Down upon my face /
I catch 'em in my mouth! / Walk and cry, walk and cry”.

She Fell Away (1986)

Mais uma das teatrais deambulações de Cave pelo universo feminino, referindo-se de forma vaga, e portanto misteriosa, a uma “rapariga deitada e aberta como uma estrada”: “Once she lay open like a road / Carved apart the madness that I stumbled from / But she fell away, she fell away / Shed me like a skin, she fell away”.

Sad Waters (1986)

Nesta terna canção, Cave fala-nos de Mary, com “cabelo dourado e lábios como cerejas”. É a história de um amor adolescente em que o narrador se confessa refém da sua inocência: “And with a toss of her curls / That little girl goes wading in / Rollin her dress up past her knee / Turning these waters into wine /Then she platted all the willow vines”.

Watching Alice (1988)

Canção sobre Alice, uma rapariga “que está nua em Junho” e que tem “um corpo moreno e dourado”, provavelmente uma prostituta, com botas altas de fecho. Mas pode ser apenas a nossa imaginação: “Alice climbs into her uniform / The zippers on the side / Watching Alice dressing in her room / It's so depressing, it's cruel”.

Lucy (1990)

A Lucy desta canção, que aqui mostramos numa gloriosa versão ao vivo, é, claro, um anjo, que surge “repentinamente” como uma “visão de beleza”, “revestida de branco”. Poderá ter morrido esta mulher que Nick garante amar para sempre? “Now the bell-tower is ringing / And the moon it is high / O Lucy, can you hear me / When I cry and cry and cry”.

Christina The Astonishing (1992)

Esta espantosa Christina viveu há muito tempo, diz-nos Cave, que aqui surge uma vez mais ao vivo. É mais uma das histórias trágicas que só este mestre parece saber contar, baseada em Christina Mirabilis, uma santa belga que morreu no primeiro quarto do século XIII. “Christina the Astonishing / Was the most astonishing of all / She prayed balanced on a hurdle / Or curled up into a ball / She fled to remote places / Climbed towers and trees and walls”.

Ain’t Gonna Rain Anymore (1994)

Quando Nick Cave fala de mulheres de espírito selvagem, refere-se certamente a criaturas como a que inspirou “Ain’t Gonna Rain Anymore”, sobre uma rapariga intempestiva que se foi embora, deixando, como esses furacões que por vezes tomam nomes de mulheres, um rasto de destruição atrás de si: “Now the storm has passed over me / I'm left to drift on a dead calm sea / And watch her forever through the cracks in the beams / Nailed across the doorways of the bedrooms of my dreams”.

Knoxville Girl (1996)

Lado B de “Henry Lee”, que Cave gravou com PJ Harvey, este “Knoxville Girl” é uma versão de uma velha canção folk americana que a Carter Family ou até os Lemonheads chegaram a gravar. Claro que Nick Cave a reclama, fazendo-a sua, até porque tem um fim trágico, como ele parece gostar: “I met a little girl in Knoxville / A town we all know well / And every Sunday evening / In her home I'd dwell”.

Lovely Creature (1996)

Não há apenas demónios nas canções de Nick Cave, também há lugar para “criaturas amáveis”, de “laços na cabeça” e “luvas verdes nas mãos”, mas também esta mulher que “repousa sob as areias” pode ser já um fantasma, uma memória: “When I got home, my creature / Was no longer with me / Somewhere she lies, this lovely creature / Beneath the slow drifting sands”.

Crow Jane (1996)

Pegando no título de uma velha canção do bluesman Skip James, Cave fala-nos de uma Jane que tem “horrores na cabeça” que percorre a “estrada do ódio” e que, só neste tema, mata pelo menos 20 pessoas numa terra que contava 48 habitantes quando ela lá chegou: “Your guns are drunk and smoking / They've followed you right back to your gate / Laughing all the way back from the new town / Population, now, 28”.

The Curse of Millhaven (1996)

Mais uma “murder ballad”, esta sobre uma rapariga chamada Loretta que prefere, no entanto, ser tratada por Lottie, que vem de Millhaven e que conta apenas 15 anos de idade, tenra idade que não a impede de espalhar terror, enquanto canta alegremente: “Singing La la la la La la la lie /All God's children they all gotta die”.

Where the Wild Roses Grow (1996)

Há muitas mulheres em Murder Ballads, mas só uma é personificada por Kylie Minogue e o seu nome é Elisa Day, embora na canção confesse que todos lhe chamam Wild Rose. E canta Cave: “From the first day I saw her, I knew she was the one / She stared in my eyes and smiled / For her lips were the colour of the roses /That grew down the river, all bloody and wild”.

West Country Girl (1997)

Tema do album The Boatman’s Call, “West Country Girl” fala-nos de uma rapariga de “sorriso torto e rosto em forma de coração” que tem “um gato grande e gordo” e “olhos verdes”. Impossível não a vermos na nossa imaginação: “She's got a house-big heart where we all live / And plead and council and forgive / Her widow's peak, her lips I've kissed / Her glove of bones at her wrist / That I have held in my hand”.

Black Hair (1997)

Mais uma canção de The Boatman’a Call sobre uma mulher com rosto em forma de coração e que apanha um comboio para o oeste... será a mesma do enorme gato e olhos verdes? Cave canta-a aqui, ao vivo e ao piano: “The smell of her black hair upon my pillow / Where her head and all its black hair did rest”.

As I Sat Sadly By Her Side (2001)

Mais uma mulher com um gato, este ainda pequeno, com quem o poeta conversa enquanto observa os cabelos compridos que lhe caem sobre os ombros: “Then she drew the curtains down / And said, "Oh, when will you ever learn / That what happens there beyond the glass / Is simply none of your concern? / God has given you but one heart / You are not a home for the hearts of your brothers”.

Little Janey’s Gone (2001)

Lado B de “As I Sat Sadly By Her Side”, este tema fala-nos de Janie que partiu, não se sabe bem como: “She was the only one that we all could depend on / And now she's gone away”.

Dead Man in My Bed (2003)

Há um homem morto na cama desta mulher que inspira o futuro e expira o passado e que lamenta que o homem que costumava ser tão bom para ela agora cheire tão mal. Terá sido ela a matá-lo? “I keep poking at him with my stick / But his skin is just so fucking thick / There's a dead man in my bed”.

She Passed By My Window (2003)

Mulher de olhos brilhantes que passou em frente à janela do poeta, sacudindo a neve da sua luva e sem fazer um som: “And bent to pick her glove she'd dropped /From the bright and brittle snow /Nature had spoken it in the Spring / With apple, plum and brand new pear”.

Electric Alice (2007)

Será a mesma Alice, provavelmente prostituta, da canção de 1988? Pode ser, até porque vai olhando para a lua brilhante na noite, mas aqui surge para dar um choque eléctrico nos Grinderman, num retrato breve: “I think I hear a baby cry / Thought Electric Alice as she passed by / Makes me feel like I'm a little child again / Thought Electric Alice in the silver rain”.

Depth Charge Ethel (2007)

Mais uma prostituta evocada pelos Grinderman, esta “famosa aí pelas terras”, com quem o narrador gostaria de ter alguma exclusividade: “I entered the room and the canned laughter / Ethel was angled across some dude's knee / I offered to clothe her to feed and to bath her / If she'd just give me a little exclusivity”.

Today’s Lesson (2008)

Esta canção fala-nos da pequena Janie, que acorda do seu sonho, com uma arma enfiada nos jeans, em mais uma história de abuso. Será a mesma que desapareceu noutra canção? “We are violated in our sleep and we weep and we toss and we turn and we burn / We are hypnotised we are cross-eyed we are pimped we are bitched / We are told such monstrous lies”.

Heathen Child (2010)

Tema do segundo álbum de Grinderman que nos fala de uma rapariga, “Moo Moo”, que se masturba na banheira, que tem uma arma e não acredita no divino, provavelmente com razões para tal: “She was raised by beasts / And photographed by vultures”.

Animal X (2013)

Single do Record Store Day de 2013, “Animal X” fala-nos de uma rapariga de 20 e tal anos que conhece um rapaz, “Animal Y”, também de 20 e poucos, com que se cruzou mercê de um qualquer gesto cósmico. E a história, claro, não parece terminar bem: “He was a different kind / But they were built for each other / Bit by bit, and piece by piece / They were built for each other, by some cosmic hand”.

Rings of Saturn (2016)

O próprio Nick Cave diz que aqui ensaia uma espécie de rap. O tema, explicou o próprio Cave nos seus Red Hand Files, versa sobre um episódio sexual na vida de uma mulher que parece assolada pela sua própria promiscuidade: “Now this is what she does and this is what she is / And this is the moment, this is exactly where she is born to be”.