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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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Tom Waits

Anton Corbijn

Porque amamos Tom Waits. O retrato de um génio em 30 canções assombradas

Dono e senhor de uma carreira que se estende por cinco décadas, Tom Waits é genial e incomparável. Recuperamos um longa análise de 30 canções inesquecíveis. Para começar bem o ano

O tempo parece estar finalmente a apanhar Tom Waits, que este sábado, 7 de dezembro, completa 70 anos. O reverenciado músico americano também assinala por estes dias meio século de entrega à música, já que foi em 1969 que começou a subir ao palco do café Heritage, em San Diego, para interpretar versões de Bob Dylan e abrir para artistas de visita à cidade como Tim Buckley ou Sonny Terry.

Não se pode, no entanto, dizer que este foi um meio século aturadamente preenchido, uma vez que Waits foi relativamente parcimonioso na sua produção, tendo assinado 'apenas' 16 álbuns de estúdio, um par de bandas sonoras e três álbuns ao vivo, mais o grande projecto Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards, coleção conceptual de canções apresentada em 2006 num generoso triplo CD.

Waits não lança novo material desde 2011, ano em que editou Bad As Me, e a sua última digressão data já de 2008, mas nesta década arranjou tempo para participar em alguns filmes, nomeadamente em The Ballad of Buster Scruggs, uma criação dos irmãos Coen, e no novíssimo The Dead Don’t Die, comédia de terror com assinatura de Jim Jarmusch. Apesar de haver relatos que dão conta de que o homem de Rain Dogs é hoje um reservado pai de família e extremoso marido de Kathleen Brennan (com quem celebrará 40 anos de casamento em 2020), a verdade é que lá vai atendendo o telefone para fazer projetos pontuais: aconteceu em Songs of Resistance, trabalho de 2018 de Marc Ribot a que deu voz numa interpretação do clássico “Bella Ciao”; em God Don’t Never Change, compilação de homenagem ao bluesman Blind Willie Johnson para a qual gravou versões de “The Soul of a Man” e “John The Revelator” (2016); ainda Son of Rogues Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs & Chanteys, em que se entregou, ao lado de Keith Richards, à clássica canção de marinheiros “Shenandoah” (2013).

Nessas versões com que Tom Waits tem assinado fugazes aproximações ao mundo da música nos últimos anos pode ler-se algo de profundo em relação à sua personalidade: as suas versões de clássicos de blues de finais dos anos XX do século passado ou de canções de resistência e de saudade do século XIX confirmam a ideia, por ele tantas vezes repetida em entrevistas ao longo dos anos, de que é, sem dúvida, uma velha alma, um espírito que calhou viver neste tempo mas que poderia ter existido noutra era. “Quando era jovem sempre desejei ser mais velho”, confessou Waits há alguns anos. “Agora que sou mais velho já não tenho tanta certeza...”. Noutra entrevista, o cantor recordou como respondeu aos filhos, que o questionaram sobre ele ser tão diferente dos outros pais, com uma pequena história de duas árvores numa floresta, uma de tronco direito e altivo, outra de tronco retorcido e curvada: “quando os lenhadores vieram, cortaram a árvore direita para fazerem tábuas, palitos e papel. Mas a árvore torta ainda lá está, cada vez mais forte e mais estranha”. Tom Waits, claro, falava de si mesmo.

O músico que se estreou oficialmente nos discos com Closing Time, em 1973, começou por trilhar os caminhos onde se cruzavam o cancioneiro folk da era pós-Dylan, a emergente tradição de cantautores californianos, o velho country de Nashville e o jazz de cabaré, construindo uma persona muito particular: um romântico e bêbedo sábio, capaz de numa frase apenas contar uma qualquer história trágica, eternamente perdido no fundo de uma garrafa e a deambular num mundo onde fazia sempre noite e a única luz era a dos néones dos bares da zona errada das cidades. Waits editou uma sucessão de trabalhos nesse registo, até que a sua vida mudou quando conheceu Kathleen Brennan no set do filme One From The Heart, no arranque de 1980.

O filme de Francis Ford Coppola, que se revelaria uma estrondosa aposta falhada em termos de bilheteira mas que se tornaria obra de culto, contava com banda sonora de Tom Waits e com a colaboração da cantora de country Crystal Gayle, marcando uma transição no som de Tom Waits que, pouco depois, embarcaria na sua mais celebrada fase com a edição do tríptico Swordfishtrombones, Rain Dogs e Franks Wild Years, entre 1983 e 1987. Estes são trabalhos que desembocaram no extraordinário Big Time, filme concerto de 1988 que reiterou que para Tom Waits o concerto ao vivo era igualmente uma oportunidade para dar azo ao seu interesse pelo teatro e pela representação.

Com os anos 90 chegou também a fase de maior experimentação: Bone Machine, de 1992, viu o artista a enveredar por caminhos cada vez mais dissonantes, misturando a inspiração de Kurt Weil e de artistas de vanguarda como Harry Partch com um interesse crescente pelos primórdios do rock e dos blues, o vaudeville, o gospel e a música dos espetáculos de beira de estrada do início do século XX - tudo misturado com uma espécie de arrebatamento religioso ou místico, possivelmente captado ao estudar os mais expansivos reverendos evangélicos. Essa inspiração rendeu-lhe canções como “Jesus Gonna Be Here” (Bone Machine, 1992) “T’Aint No Sin” (The Black Rider, 1993), “Chocolate Jesus” (Mule Variations, 1999), “God’s Away On Business” (Blood Money, 2002), “Sins of My Father” (Real Gone, 2004) ou “Raised Right Men” (Bad As Me, 2011).

Contudo, Waits, como os incontáveis bootlegs que dele foram surgindo ao longo dos anos deixavam perceber, ainda tem muitos recantos desconhecidos do seu percurso por revelar, gravações que foi espalhando pelas décadas que, de vez em quando, descobrem o caminho até ao presente. Há alguns meses, a caixa Dead Man’s Pop, dedicada a contar a história de Don’t Tell a Soul, álbum de 1989 dos Replacements, mostrou ao mundo os resultados de uma tarde regada a álcool em que Tom Waits partilhou o estúdio com a banda de Minneapolis. No arranque de um ébrio “Date to Church” escuta-se o rain dog a perguntar, meio incrédulo, “vamos fazer uma cena gospel?”. Ouvindo o resultado final do tema, no entanto, não há par de ouvidos que não se sinta obrigado a declarar-se rendido e convertido. É que o gospel de Tom Waits é realmente capaz de iluminar o mais empedernido dos corações. Para celebrar este autêntico reverendo americano, no dia do seu 70º aniversário escolhemos 30 dos seus mais arrebatados salmos.

Closing Time (1973)

1. Ol’ 55

Primeira faixa e primeiro single do álbum de estreia de Tom Waits, “Ol’ 55” tinha mesmo que figurar nesta lista. Canção de camionista, à boa maneira country, “Ol’ 55” mereceu versões de gente como os Eagles (banda que Waits descreveu como “tão excitante como ver tinta a secar”...), Richie Havens ou Sarah McLachlan. A mais recente data já de 2019, tem assinatura de Shelby Lynne e Allison Moorer e está incluída num álbum em que uma série de mulheres prestam homenagem a Tom Waits, Come on Up to The House.

2. Martha

“Martha” fechava o lado A do álbum de estreia de Tom Waits e assegurava logo aí que o seu autor teria que fazer história: esta dorida história romântica em que um homem liga ao seu grande amor, “40 anos ou mais” depois, para saber para onde a vida a levou e confessar que nunca a deixou de amar é um diamante de perfeita beleza que conquistou a eternidade. Que Tim Buckley a tenha gravado logo em 1973 é um claro sinal do reconhecimento do génio do então jovem de 24 anos que soava já muito mais vivido do que a idade faria pensar.

The Heart of Saturday Night (1974)

3. Diamonds on My Windshield

Uma espantosa linha de contrabaixo por Jim Hughart, músico que tocou com gente como Joe Pass, Frank Sinatra ou Joni Mitchell, suporta a assertiva voz de Tom Waits que logo à cabeça nos oferece a mais poética das descrições da chuva, “diamantes no meu pára-brisas, lágrimas caídas do céu”, antes de nos oferecer uma polaroide da América a partir do lugar do condutor que acabou de sair da auto-estrada para entrar numa qualquer cidade.

4. Drunk on the moon

Canção de fecho de noite num bar mal frequentado e perdido no meio da cidade, com o típico piano bêbado de Tom Waits por principal acompanhamento, esta é uma daquelas canções que, como os melhores livros, começa logo com uma poderosamente evocativa frase: “Tight slack clad girls on the graveyard shift” é a abertura de uma poderosa estrofe que poderia sair de um quadro da América nocturna vista por Edward Hopper.

Nighthawks at the Diner (1975)

5. Emotional Weather Report

Embora tenha sido gravado no Famoso Record Plant de Los Angeles, Nighthawks at The Diner beneficiou da presença de pessoas no estúdio com que o produtor Bones Howe procurou replicar a atmosfera de um clube de jazz. E, claro, o título do álbum inspirava-se numa obra do pintor mencionado a propósito de “Drunk on The Moon”, Edward Hopper. A canção mostra que é possível ser-se blues shouter, homem do tempo, cómico stand up e proto-rapper ao mesmo tempo. Só mesmo Tom Waits...

Small Change (1976)

6. Tom Traubert’s Blues (Four Sheetsto the Wind in Copenhagen)

“Tom Traubert’s Blues”, tema que abria o alinhamento de Small Change, tem um refrão que se inspira no velho clássico “Waltzing Mathilda” e foi escrita em Londres referenciando uma passagem por Copenhaga. Waits afirmou que se trata de uma canção “acerca de vomitar num país estrangeiro”. Talvez, mas é muito mais do que isso: servida por um belíssimo arranjo de cordas, é também uma das mais sentidas interpretações de Waits da primeira fase da sua carreira.

7. The Piano Has Been Drinking (Not Me) (An Evening With Pete King)

Não se percebe muito bem se é Waits que imita um pianista bêbado ou vice-versa, nesta extraordinária canção em que a lucidez ébria do autor resulta em frases carregadas de humor: é a jukebox que precisa de ir urinar, a carpete que tem que ir cortar o cabelo, o foco de luz que parece uma fuga da prisão e o telefone que tem falta de cigarros, os bancos do bar que estão a arder e os cinzeiros que já se reformaram. Vale tudo. Porque o piano é que está bêbado. Não o pianista, obviamente.

Foreign Affairs (1977)

8. I Never Talk to Strangers

Bette Midler, que se junta a Tom Waits neste belíssimo mini-filme feito canção, começa por, na sua voz mais coquette, pedir um Manhattan ao barman. E isso, claro, é o isco perfeito para que Tom Waits entre em cena: “perdoe-me se já ouviu esta antes, mas sinto que já nos conhecemos”. O diálogo que se segue tem tanto de musical como de teatral e bem que poderia ser um excerto de um qualquer espectáculo da Broadway. “Só palermas é que se apaixonam por perfeitos desconhecidos”.

Blue Valentine (1978)

9. Christmas Card From a Hooker in Minneapolis

Mais uma das comoventes histórias a que só mesmo alguém como Waits poderia dar voz: a de uma prostituta que escreve a Charley, se confessa grávida, diz ter deixado a droga e o álcool e conta uma história que tem uma amarga reviravolta final (não há spoilers aqui). No piano elétrico está um tal de Da Willie Gonga, alter-ego de George Duke (que tocou com Frank Zappa, entre tantos outros músicos). Neko Case foi uma das que não resistiu ao apelo desta canção.

Heartattack and Vine (1980)

10. Jersey Girl

Tom Waits é mesmo um dos mais notórios membros daquela rara classe de artistas que outros artistas reverenciam: a versão de Bruce Spingsteen para esta notável canção é uma das provas disso mesmo. “Jersey Girl” foi escrita para Kathleen Brennan, à época a viver em Nova Jérsia, pouco antes dela aceitar o pedido de casamento de Tom Waits. Quem poderia, afinal de contas, resistir a versos como “don’t want no whores on eighth avenue / Cause tonight I’m gonna be with you”?

One From The Heart (1982)

11. Broken Bicycles

Pode dizer-se que é Tom Waits em estado puro, o que surge com voz meio sussurrada meio cantada neste tema da banda sonora de One From the Heart, filme do realizador Francis Ford Coppola com quem o cantor-ator colaboraria depois em vários filmes (teve pequenos papéis em Outsiders, Rumble Fish, Cotton Club ou Bram Stoker’s Dracula). Só mesmo ele para extrair poesia da descrição de uma velha bicicleta, com guiador ferrugento e corrente partida.

Swordfishtrombones (1983)

12. 16 Shells From a Thirty-Ought-Six

Adeus velho trovador ébrio dos bares mal frequentados da cidade, olá vendedor ambulante de objetos estranhos, enciclopédias esotéricas e bálsamos milagreiros: tudo aqui é novo, a percussão erudita do britânico Victor Feldman, a guitarra angular do homem dos Little Feat Fred Tackett e a entrega de Waits que parece ter engolido um megafone enquanto fala de meter 16 balas numa carabina e de corvos e marimbas e outras coisas esquisitas. A ideia, explicou o próprio Waits mais tarde, era fazer algo parecido com o que os prisioneiros cantavam nos campos de trabalho, um “field holler” à maneira antiga dos blues.

13. In The Neighborhood

Uma marcha quase fúnebre, “fellinesca” de acordo com o próprio Tom Waits, liderada por uma secção de metais e pela percussão solene que acompanham o narrador num passeio pelo bairro em que os camiões de entregas fazem demasiado barulho e onde os miúdos não podem comer gelado porque o mercado ardeu. Mais um dos filmes que Tom consegue criar com palavras e melodias.

Rain Dogs (1985)

14. Jockey Full of Bourbon

Incrível guitarra de Marc Ribot, balanço de rumba e Tom Waits a cantar através de um walkie talkie, como quem transmite um segredo a partir de lugar incerto. Este foi o primeiro single retirado do notável Rain Dogs, apontado frequentemente como um dos melhores álbuns dos anos 80. Este tema tem versões assinadas por Joe Bonamassa, Los Lobos, Diana Krall ou pelos Blue Hawaiians, um grupo de surf rock que tem em Quentin Tarantino um grande fã.

15. Downtown Train

O que têm em comum Rod Stewart, os Everything But The Girl, Mary Chapin Carpenter, Bob Seger ou os Rentokill? Todos gravaram versões de “Downtown Train”, um dos temas centrais de Rain Dogs, muito graças ao icónico vídeo de Jean-Baptiste Mondino que a MTV apadrinhou na altura. Uma das guitarras na versão original é de Robert Quine, homem dos Voidoids de Richard Hell.

Franks Wild Years (1987)

16. Way Down In The Hole

Por esta altura, em entrevista a Sean O’Hagan para o NME, Tom Waits descrevia a sua música como sendo apropriada para a cadeira elétrica: “não sei, é tipo tabasco: pode usar-se em peixe ou em aves”. O tema que parece ter inspirado “Red Right Hand” de Nick Cave ganhou notoriedade ao ser usado no genérico da série The Wire, da HBO, com diferentes temporadas a recorrerem a versões de gente como Blind Boys of Alabama, Neville Brothers ou Steve Earle, além do original do próprio Waits, pois claro.

17. Telephone Call From Istambul

Há um coro de 60 vozes em Brighton chamado Jam Tarts (a sério...) que tem uma versão deste tema de Tom Waits. Desastrosa, pois claro... O original, que sabiamente nos aconselha a não confiar num homem que vista gabardine azul ou conduzir um carro se estivermos mortos, tem banjo a cargo de Marc Ribot e um incrível solo de órgão Farfisa de Tom Waits que também canta na sua melhor voz-arrasada-por-uma-tempestade-de-areia. Que ainda assim funcione é um facto que desafia a ciência.

Stay Awake (1988)

[compilação de homenagem à música da Disney]

18. “Heigh Ho (The Dwarfs Marching Song)”

Esta versão de um tema de 1937 do filme Branca de Neve e os Sete Anões poderia perfeitamente ilustrar pesadelos e não podia soar mais distante do universo original: Waits parece cantar diretamente das entranhas do inferno, como se tivesse mesmo gravado nas profundezas de uma mina. Com a participação dos produtores Mitchell Froom (Richard Thompson ou American Music Club) e Tchad Blake (Elvis Costello, Pearl Jam), este é um dos pontos altos de Stay Awake, disco de tributo à música dos filmes da Disney idealizado por Hal Willner.

Bone Machine (1992)

19. Jesus Gonna Be Here

O tema arranca com Tom Waits a evocar o fantasma de Howlin’ Wolf cantando no fundo de um poço. Atrás ouve-se a National Steel de Larry Taylor, guitarrista dos Canned Heat que faleceu no passado mês de Agosto. Blues na voz de um reverendo com um problema de dicção (delicioso o pormenor com as sibilantes) a pregar a uma congregação de espectros algures num pântano do Louisiana. A sério.

20. I Don’t Wanna Grow Up

Para um homem que sempre se declarou mais velho do que o bilhete de identidade indicava, uma canção com um título destes terá que forçosamente ter uma leitura irónica. Mais irónico ainda será o facto dos Ramones, esses eternos adolescentes, terem pegado na canção no seu álbum de despedida, Adios Amigos!, sendo essa versão usada posteriormente no episódio inaugural da série Big Mouth da Netflix.

The Black Rider (1993)

21. I’ll Shoot The Moon

Balada oblíqua servida por guitarra de Joe Gore, produtor do segundo álbum dos portugueses Belle Chase Hotel, este “I’ll Shoot the Moon” mostra-nos Tom Waits a assumir a frágil humanidade da sua voz e não é difícil imaginá-lo de joelho no chão, com um ramo de flores murchas nas mãos, a dedicar o tema à sua amada Kathleen Brennan, algures num cenário imaginado por Tim Burton.

Mule Variations (1999)

22. Eyeball Kid

“Eyeball Kid” dá nome a um dos melhores blogues de fãs de Tom Waits, sempre recheado de boas notícias. É também um dos temas centrais de Mule Variations, algures entre os blues de grafonola e um hip hop pós-apocalíptico em que surge o DJ M Mark “The Ill Media” Reitman a dar uma ajudinha. E Tom Waits a vociferar lá das entranhas do inferno, pelo meio de uma espantosa quinquilharia sonora. Há pesadelos bem mais harmoniosos.

Blood Money (2002)

23. God’s Away On Business

Mais um resultado de colaboração com o encenador Robert Wilson, Blood Money contém música que foi criada para o musical Woyzeck. E este tema tem a particularidade de contar com Stewart Copeland, baterista dos Police, a ajudar à construção da batida marcial que o carrega enquanto Waits canta “Who are the ones we kept in charge? / Killers, thieves and lawyers”.

Alice (2002)

24. Alice

Terceira colaboração com Robert Wilson (além do já mencionado Blood Money e de The Black Rider), encenador que Waits descreveu como “um gigante com visão”, apresentando-se a si mesmo como um “anão aleijado”. Nada disso, como se percebe no tema título desta belíssima leitura da heroína criada por Lewis Carroll, mais uma sofisticada balada servida aqui por um estranhamente contido solo de Colin Stetson no saxofone.

Real Gone (2004)

25. Make It Rain

“Funk cubista”. Foi assim que Waits descreveu a música de Real Gone, um álbum criado com uma incrível equipa em que surgiam Les Claypool ou Brain, secção rítmica dos Primus. Mas neste tema, só tocam Larry Taylor, Marc Ribot e o filho de Tom, Casey Waits. Na digressão Glitter & Doom, esta pérola justificava um extraordinário momento cénico, com Tom Waits a cantar sob uma chuva de confetti brilhante.

The Late Great Daniel Johnston: Discovered Covered (2004)

[compilação de homenagem a Daniel Johnston]

26. “King Kong”

O original do, agora sim, “late great” Daniel Johnston, falecido em Setembro último, é interpretado a cappella, mas revela-se um mapa perfeito para a leitura de Tom Waits, que sampla a sua própria voz para obter a assombrada base rítmica que suporta a sua versão desta absurda canção sobre a mítica figura de “King Kong”. Mark Linkous, dos Sparklehorse, dá uma ajuda com a percussão.

Orphans, Bawlers & Bastards (2006)

27. Road to Peace

Peça com mais de sete minutos, “Road to Peace” é uma espécie de continuação da ideia explorada em “Day After Tomorrow”, canção anti-guerra do Iraque incluída em Real Gone. Desta vez trata-se de uma rara reflexão, para Waits pelo menos, sobre outro assunto corrente, o conflito entre Israel e a Palestina, com o cantor a chamar os bois pelos nomes e a desenhar um negro retrato de um sangrento conflito em que a América também é dada como culpada.

Bad As Me (2011)

28. Satisfied

Este é o tema em que Tom Waits decide responder aos Rolling Stones: “Now Mr. Jagger and Mr. Richards / I will scratch where I’ve been itching”. Explicou Waits: “sempre que ouço a ‘Satisfaction’ penso a mesma cena: se vocês não conseguem obter satisfação, é porque ninguém consegue”. Ironia máxima? Keith Richards participa na gravação...

Songs of Resistance (Marc Ribot, 2018)

29. Bella Ciao

Canção inserida em Songs of Resistance, contributo do guitarrista Marc Ribot para a oposição a Donald Trump, “Bella Ciao” data do final do século XIX e foi adoptada como um tema da resistência anti-fascista quando Mussolini estava no poder. Marc e Tom gravaram-na numa tarde, enquanto a Califórnia era assolada por devastadores fogos. “Quando estávamos a gravar havia ainda muito fumo no ar, o céu estava negro, a autoestrada estava cortada, foi uma loucura”, recordou Ribot, em entrevista.

Dead Man’s Pop (The Replacements, 2019)

30. Lowdown Monkey Blues

Este Verão saiu Dead Man’s Pop, uma caixa que pretende corrigir a história de Don’t Tell a Soul, um álbum dos Replacements de 1989 que falhou a grandeza devido a uma péssima mistura que pretendia à época apresentá-lo aos tops. No material extra que acompanha as novas misturas há 5 faixas que os Replacements gravaram com Tom Waits numa tarde muito bem regada, incluindo este delirante blues em que o agora septuagenário soa como um condutor intoxicado a tentar convencer um polícia de que a máquina que acabou de detetar uma elevada concentração de álcool no seu sangue está avariada.