Travis Scott no SBSR: o punk não morreu, mas tem uma cara e um som novos
21.07.2018 às 1h42
No Super Bock Super Rock, Travis Scott assinou uma vertiginosa viagem punk, feita de bangers, autotune e uma ou duas toneladas de carisma.
Em 1978 os Sex Pistols tocaram nos Estados Unidos, numa caótica, curta, mas também histórica digressão que haveria, aliás, de ditar o fim do grupo. Bruce Springsteen, por outro lado, deu mais de uma centena de concertos no mesmo ano, cimentando o seu futuro de forma sólida. Uns diziam “no future”, o outro era apontado como o futuro.
O futuro, porém, revelou-se bem diferente, a julgar pelo concerto que Travis Scott assinou nesta 24a edição do Super Bock Super Rock. Se este mesmo festival pôde há um par de anos aplaudir uma espécie de equivalente rap do homem de "Darkness on the Edge of Town", hoje aplaudiu fervorosamente um dedicado herdeiro dos rapazes de 'Pretty Vacant'. É que a explosiva actuação de Travis, com o seu constante apelo ao mosh, toda feita de crescendos irresistíveis, é o mais punk que se pode pedir em 2018.
Num palco adornado por ecrãs gigantes onde se posicionava, numa espécie de torre, o seu DJ e hypeman, Travis Scott cantou em frente a um caleidoscópio de detritos visuais, imagens digitais abstractas, pedaços de anónimas memórias dispersas online, recortes de revistas de moda. E com a voz gritada e poderosamente processada com autotune, sobre temas distorcidos ao máximo e com as frequências agudas puxadas até bem perto do absurdo, o homem de Rodeo e Birds in the Trap Sing McKnight desfilou banger atrás de banger, com 'Stargazin'' à cabeça e 'Mamacita','Way Back', 'Butterfly Effect', 'Through The Late Night' ou, entre tantos outros, 'Upper Echelon' a deixarem claro que o rapper do Texas é uma máquina de fazer hits, um verdadeiro cowboy que parece ser capaz de acertar no alvo de cada vez que puxa da sua “arma”.
Colaborador incansável, La Flame também mostrou versos que “ofereceu” a estrelas como 2 Chainz ('4 AM'), SZA ('Love Galore') ou Miguel ('Sky Walker'), mantendo o público, que não parou um segundo, permanentemente satisfeito tal a overdose de açúcar sonoro em que os banhou a todos.
A música de Scott, como a dos Pistols em tempos, é toda nervo, rajada, energia em estado puro, carregada de slogans e de melodias simples que se parecem infiltrar debaixo da pele, descurando qualquer assomo de rigor técnico. Como acontecia também com os rapazes de Johnny Rotten, Travis não tem tempo para ser sofisticado, mas sobra-lhe força, 'bravado' e um carisma que parece não ter fim.
E ainda como os Pistols, enfim, Travis Scott até poderá nem ser o futuro, mas quem se arrepiou na Altice Arena com o poder gigante de 'Antidote' ou 'Goosebumps', malhas convenientemente guardadas para o final, já não tem dúvidas de que é a perfeita encarnação do presente. Encaixem isso.