Manel Cruz
Rita Carmo
“Estive perdido, sim. Mas queria continuar a brincar, a sentir pica, a apaixonar-me”. A vida segundo Manel Cruz
24.04.2021 às 10h00
Canções, confissões e revelações. Em 2019, falava com a BLITZ sobre a “depressão criativa” que antecedeu “Vida Nova”, um disco umbilical, mas também sobre o final dos Ornatos Violeta, ética e internet, fama e culpa. No dia em que Manel Cruz se apresenta num concerto especial em 'live streaming' (é hoje, às 21h), recuperamos a mais completa entrevista que fizemos a uma das grandes figuras da música da Invicta e do país inteiro
São dez da manhã quando Manel Cruz atravessa a Rua do Heroísmo, no Porto, para entrar no Centro Comercial Stop, onde tem o seu estúdio. Ao longo de mais de uma hora, o músico fala sem pudor do presente, marcado pelo lançamento do álbum a solo “Vida Nova”, mas também do passado, com paragem obrigatória nos Ornatos Violeta e nos sentimentos contraditórios que o final da banda, em 2002, lhe provocou. Conversa livre para ler com tempo, que voltamos a publicar no dia em que o músico dá um concerto especial em live streaming - é este sábado, às 21h.
Está entusiasmado com a chegada, por fim, desta “Vida Nova”?
Sim! Principalmente porque acabou e agora posso fazer outras coisas.
À semelhança de um gato, este disco teve várias vidas. Consegue localizar qual a canção mais antiga e a mais recente neste alinhamento?
Posso identificar uma das músicas, que curiosamente é a primeira [no alinhamento]. Foi uma feliz coincidência, porque é a canção que, quando surgiu, me fez acreditar que ainda era possível fazer coisas que me satisfizessem na música. Não que alguma vez duvidasse que pudesse ser possível, mas já há muito tempo que não me acontecia. A certa altura, predispus-me a ir outra vez à colheita da fruta. E esta música, 'Como o Bom Filho do Vento', fala precisamente disso: “Estou à procura de um túnel no tempo, gesto incauto que me empurre por um momento”, que tem a ver com o facto de estares à procura mas também à espera que alguma coisa aconteça e que a reconheças como valiosa, como uma garimpa. Entretanto, fiz muitas músicas em horário de função pública; começava às 8h e acabava às 16h. Fazia uma por dia: era uma espécie de imposição minha. E pensei: “se nestes quatro meses não produzir nada, vou dedicar-me a outras coisas”. [Fi-lo para] fazer face a essa ansiedade e a essa depressão criativa, e para tirar as teimas. Quando essa música me surgiu, o que me veio à cabeça foi: “ainda é possível”. É como quando tiras muitas fotografias e reconheces uma que é boa. E depois acabou por ficar no início do disco. Fiz muitos alinhamentos possíveis, e quando ouvi aquele de que gostei [mais], reparei que havia uma narrativa, uma cronologia, que tinha a ver com o processo pessoal de feitura do disco.
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